A CARTA TESTAMENTO DA CHACINA DE CAMPINAS (SP)

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3 de janeiro de 2017 por Lucas Rafael Chianello

Após pedirmos por paz e amor na madrugada de 2016 para 2017, quando já sabíamos que na Turquia dezenas de pessoas tinham sido assassinadas por bandidos armados vestidos de Papai Noel, acordamos, tarde, perplexos com a primeira notícia do horrendo jornalismo do tipo policial que, no mundo, só se pratica no Brasil: um rapaz invadiu a festa de réveillon da ex-esposa e promoveu uma chacina na qual, dentre outras pessoas, matou ela, o filho e depois suicidou.

Há de se respeitar a medicina (tanto a legal como a convencional) e as garantias processuais de qualquer réu num processo criminal, como por exemplo a presunção de inocência até o trânsito em julgado, o contraditório e a ampla defesa.

Como neste caso o próprio réu se matou, é prudente que se aguarde a conclusão das investigações para saber se de fato é verdade que o filho não gostava do pai, que teria sido abusado por ele e que a esposa praticava alienação parental, pois mesmo que o autor do crime tenha suicidado, um estudo deve ser feito junto de assistentes sociais e psicólogos forenses para que o fato não se repita.

Há, dentre outras coisas, questões de saúde pública e mental envolvidas, de modo que o objetivo deste texto é analisar em separado o fator político contido na carta deixada pelo autor da chacina ao filho.

Depois da reeleição da presidenta Dilma Rousseff em 26/10/2014, a extrema-direita brasileira abriu as portas do inferno para, diariamente, vociferar o discurso de ódio e intolerância e com isso atingir seu objetivo: encerrar a série histórica de mais de dez anos de governos populares diretamente eleitos.

Na sessão de admissão do impeachment na Câmara dos Deputados, no dia 17 de abril de 2016, o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC/RJ) justificou seu voto favorável à abertura do processo ao homenagear o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, “pavor de Dilma Rousseff.”

Ustra foi um destacado praticante da tortura sobre os inimigos políticos da ditadura.

Notório saudosista da ditadura, Bolsonaro é conhecido por seus discursos de cunho extremamente machistas e discriminatórios, quando por exemplo disse que seus filhos não corriam o risco de namorar negras e tornarem-se homossexuais porque foram bem educados, assim como quando intimidou a deputada federal Maria do Rosário (PT/RS) ao dizer que ela não merecia sequer ser estuprada.

Líder inconteste do discurso nazista tropical, Bolsonaro é reproduzido diariamente nos principais programas policiais da TV brasileira.

A cada infração cometida por menores, Marcelo Rezende, Datena, Rachel Sheherazade e afins não hesitam em afirmar que a solução da criminalidade infanto-juvenil é a redução da maioridade penal.

No caso da apresentadora e comentarista, todos se recordam do quanto repercutiu ela ter dito que se estávamos com dó de um rapaz que foi trancafiado nu num poste, deveríamos levá-lo para nossas casas.

Finalmente, também é preciso recordar da linha de frente formada por Bolsonaro, Datena, Marcelo Rezende, Sheherazade e pelo governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), na defesa incondicional das polícias militares, que segundo a própria ONU (Organização das Nações Unidas) são esquadrões da morte.

Principalmente da juventude negra das periferias brasileiras.

Qual a diferença do Bolsonaro dizer que uma deputada federal não merece ser estuprada e o autor de um crime passional escrever para o próprio filho que mulheres como a sua mãe são protegidas pela “lei vadia da Penha”?

Qual a diferença do Bolsonaro dizer que o coronel Ustra era o pavor de Dilma Rousseff e o autor de uma chacina escrever para o próprio filho que queria pegar o máximo de vadias de determinada família?

Machismo não mata, não é mesmo?

Qual a diferença da Rachel Sheherazade perguntar porque não adotamos um bandido e um pai, antes de matar seu próprio filho numa chacina, justificar assassinatos em série numa carta ao escrever que fará aquilo para que famílias de trabalhadores honestos não passem pelo que ele passou?

Qual a diferença entre o Datena e o Marcelo Rezende defenderem julgamentos antecipados e prisão perpétua com trabalho carcerário e um pai, antes de matar a ex-esposa, o filho, pessoas da família da ex-esposa e suicidar, escrever que se for preso terá três refeições por dia e assistência do pessoal dos direitos humanos?

A chacina de Campinas (SP), como bem escreveu o Kiko Nogueira do Diário do Centro do Mundo, é a escalada do pensamento de extrema direita no Brasil.

Começa na naturalização da desigualdade e do preconceito, passa pela criação de seres humanos de segunda classe, avança para um golpe de Estado em que um torturador é tratado como pavor de uma presidenta em sua juventude em regime de exceção e continua (infelizmente não termina) numa chacina seguida de suicídio.

O que aconteceu em Campinas (SP) é a perfeita reprodução da interpretação dos personagens do filme A Onda: acreditam tanto na opressão cada vez mais rigorosa para o que consideram errado e terminam convencidos piamente que podem tirar suas vidas e de seus semelhantes em razão disso.

O que também ocorre em A Queda, As Últimas Horas de Hitler, quando a esposa de Goebbels mata seus filhos com cianeto e suicida logo em seguida.

Para saber mais sobre a chacina de Campinas (SP):

O PENSAMENTO DE EXTREMA DIREITA BRASILEIRO PRODUZIU EM CAMPINAS SUA 1ª CHACINA (Leia, aqui, a carta do pai ao filho).

VIOLÊNCIA NUNCA É AMOR: DISSECANDO A CARTA DO ASSASSINO DE CAMPINAS

 

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