SOBRE TER TIDO UM LADA NIVA 1.600

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22 de agosto de 2016 por Lucas Rafael Chianello

Por Antônio Veríssimo, o PC, da direção estadual do coletivo Quilombo (MG).

Ontem meu mecânico passou aqui em casa e levou meu carro. Levou o “Fidel” para dar uma revitalizada e vendê-lo. Provavelmente nunca mais o verei de novo. A sensação de ter tido um Lada Niva, a sensação de ter tido um grande tanque de guerrilha vermelho, a sensação de ter um orgulho de fazer sorrir motorizado… talvez vocês nunca terão… mas advirto que é muito bom.

O preço da tarefa é esse. Não da para andar com ele.

Quando morava em Poços, depois em Alfenas e depois em BH tive excelentes momentos com esse meu amigo vermelho. Ele nunca me deixou na mão … Só quebrava na porta de casa, ou nem saía dela. Mas no meio da rua, nunca!

O barulho que saia do motor 1.600 e aquele ar de URSS que ele impunha, era praticamente a sensação revolucionária mais palpável que eu tinha. Pois quando a força de luta diminuía, era naquele templo que eu reavivava, com ele andando ou não. O Fidel, fazia com que as reflexões se transformassem. Transmutava toda pós-modernidade da dúvida, no mais concreto materialismo dialético.

Tive bons amigos mecânicos, sendo 60% deles com nome de José Carlos, e descobri que são uma das mais nobres e prestativas categorias do proletariado. Mecânicos de Niva são mecânicos de Niva por amor. Claro que nada de graça, mas tinha amor no parcelamento em 3 vezes.

As gloriosas talagadas dadas nos postos de gasolina, bebendo quase 7 litros por quilômetro eram engraçadas. Por isso eu não bebia, até porque alguém tinha que se manter sóbrio em tais trajetos. Meu amigo era um bebum e antes de roubarem seu radio velho, sempre me contava a mesma história com o CD da Maria Bethânia.

Quando chegava com um outro carro meu coração pedia desculpas para ele: “Fidel, é um carro emprestado”. Ele até entendia, mas sua bateria desconsolada sempre se punha a arriar. Nos últimos anos, seu modo de vida era muito encostado. Pobre Fidel, um Niva adorável.

Hoje pela primeira vez, ao entrar em casa, não o vi em sua vaga.

Hoje pela primeira vez senti a falta que aquela tranqueira simbólico-revolucionária me faz. Eu sei que ele é um carro… eu sei. Ontem o acompanhei até a esquina, depois ele sumiu. Não passou um filme em minha mente, pois estava ocupado demais pensando: “Véi, que que cê tá fazendo?”. A rua agora tem mais uma vaga e vaga sempre será por não ter mais o carro que impunha respeito.

A tarefa me impôs o tempo de arranjar novos templos.

Obrigado y Hasta, Companheiro Fidel… um dia ainda lhe cumpro a promessa da Katyusha…

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