SOBRE QUANDO EU DESCOBRI QUE EU ERA UM ESTUPRADOR EM POTENCIAL 1.0

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20 de junho de 2016 por Lucas Rafael Chianello

Por Antônio Veríssimo, o PC, da direção estadual do coletivo Quilombo (MG).

Logo quando me mudei para a capital, não me mudei bem para a capital, estava morando de favor na casa de grandes amigas minhas na cidade de Contagem, que fica na região metropolitana de BH. Tal morada da solidariedade fica no bairro Fonte Grande, que por mais perto do centro que seja, ainda mais à noite, não é lá aquela paz e tranquilidade para se dar uma volta.

Todos os dias eu saia de casa de manhã com destino a BH e à noite retornava para Contagem. O trajeto era simples: um metrô até Contagem e depois um busão. Esse busão, o 2730, parava uns dois quarteirões de onde eu morava e aí eu terminava o percurso à pé. Para mim, tal caminho, por mais tenso que fosse, era de boa, até porque eu sou um homem cis, hétero, de dois metros de altura, barbudo e andava com uma blusa militar parecendo um terrorista e uma bandeira do PT amarrada na minha bolsa. Sempre fui e ainda sou muito confiante para andar na rua na hora e no lugar que eu quiser.

Sempre me questionava sobre a colocação de algumas companheiras feministas sobre “Todo homem é um estuprador em potencial”. Não compreendia direito essa afirmativa, até porque por ser homem, olhava pela lógica de homem.

“Eu não sou um estuprador, eu sou legal, sou um militante de esquerda. Como posso, mesmo em processo de desconstrução, ter dentro de mim um desvio de caráter tão pesado como o de um estuprador?”

Era muito difícil aceitar isso, até porque não entendia e assim como hoje, lia muito pouco sobre feminismo para conseguir compreender tal questão.

Pois bem! Uma bela noite, como todas as outras, descia eu do 2730 por volta das 22h e seguia meu caminho normal até minha casa. Não tinha me alertado que uma mulher, da metade do meu tamanho, havia descido no mesmo ponto que eu e caminhava na mesma direção que eu caminhava. Ela estava a uns três metros a minha frente e caminhava a passadas largas sempre olhando para trás com cara de temor. Eu olhava para trás também e não via ninguém. Até cheguei a ficar meio aflito com medo de que havia alguém estranho na rua perseguindo a gente. Apertei o passo também, só que o meu passo dava dois dos dela. A mulher faltou gritar e quase que corria.

Naquele instante, percebi que o medo dela era eu.

Pensei comigo: “Para aquela mulher, naquela hora da noite, naquela rua escura, em um bairro de Contagem, um cara barbudo, de dois metros de altura, realmente não era nada tranquilizador.”

“O estuprador em potencial sou eu”

Claro que não faria nada com aquela mulher, tenho princípios libertários, mas como ela iria saber? Ela não podia se dar ao luxo de confiar em mim. Daí compreendi como nós homens, através da história da humanidade, nos tornamos todos estupradores em potencial. Nossos antepassados e nossos “machos” atuais causaram uma chaga muito profunda.

Creio que não faria diferença para ela qualquer outro homem desconhecido no mundo naquele momento. Ela corria desesperada da sombra histórica do machismo, que persiste no seio de nossa sociedade e em mim, que esta diretamente ligada à qualquer homem no mundo, incluso eu e você.

Não podemos mais negá-la!

E hoje, quando vejo amigos e companheiros dando “pitacos” sobre a causa das companheiras, me envergonho por não termos a capacidade de olhar a questão com os olhos das mulheres e mesmo assim tentamos conduzir sua luta.

Vejo a hora de sermos comandados, pois já erramos demais.

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