INOCÊNCIA SE PRESUME. A MÍDIA NÃO TEM FÉ PÚBLICA

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6 de fevereiro de 2016 por Lucas Rafael Chianello

Inicialmente publicado no Jornal da Cidade

No próximo dia 27, a Suécia viverá o aniversário de 30 anos de seu maior trauma político: o assassinato do primeiro-ministro Olof Palme. Claudia Wallin, autora de “Um País Sem Excelências e Mordomias”, recorda que o nome do suspeito, absolvido, só foi divulgado na imprensa após o início do julgamento e até hoje a ferida permanece aberta, pois o caso não foi solucionado.

Britt Börjesson, especialista em ética na imprensa pela Universidade de Gotemburgo, explica para a jornalista brasileira que a não publicação de nomes de suspeitos na imprensa é uma opção ética do jornalismo sueco. Não prevista em lei, diga-se de passagem. Aliás, foi na Suécia que surgiu a figura do ombudsman. Enquanto isso, no Uruguai, recentemente, os programas policiais foram abolidos.

No Brasil é exatamente ao contrário. Os órgãos de investigação e o próprio Poder Judiciário estão sequestrados pelo espetáculo midiático sensacionalista. Um repórter noticia um crime, o apresentador propõe soluções fáceis como a pena capital, a liberação indiscriminada do porte de armas e a redução da maioridade penal e o crime é explorado com vultuosos anúncios durante os comerciais.

A falsa prerrogativa de investigação policial da imprensa faz com que políticos que tenham seus nomes mencionados nas notícias policiais sejam tratados como incorrigíveis corruptos. Ano passado, a revista Veja acusou Romário de possuir contas na Suíça e o baixinho foi vangloriado por divulgar nas redes sociais uma fotografia sua com uma certidão negativa, o que levou a publicação semanal da editora Abril a pedir desculpas.

A atitude de Romário, entretanto, somente contribuiu para reforçar o caráter policialesco de uma imprensa goebbelsiana que acusa sem precisar provar, pois abriu-se mais um precedente para que se argumente que se a mídia estiver errada, basta ao acusado provar que é inocente, quando numa democracia o nosso próprio Texto Constitucional dispõe que alguém só pode ser considerado culpado depois de exercer judicialmente seu direito de ampla defesa e, uma vez condenado, da decisão final não couber mais recurso no âmbito do Poder Judiciário.

A Rede Globo tem deflagrado contra Lula uma série de reportagens, na tentativa de dar a entender que ele (um líder popular) e sua esposa utilizaram-se de manobras ilegais para comprar um tríplex no Guarujá (SP). O objetivo é claro: num contexto em que parte da direita tenta derrubar Dilma e outra tenta engessar seu mandato, inviabilizar a volta de Lula em 2018 é proporcionar a chance do Brasil voltar a ser governado por alguém que contemple prioritariamente os interesses de uma minoria rica.

Na perspectiva de que “Não basta ser mulher de César, tem de parecer mulher de César”, assessores explicaram na página eletrônica do Instituto Lula, até mesmo com fotografias de documentos, do que se trata realmente o envolvimento de Lula e Marisa Letícia, sua esposa, no episódio do tríplex no Guarujá. Consequências de uma disputa política na qual os principais grupos privados de comunicação do país, que apoiaram o golpe militar em seus editoriais em 1964, fazem as vezes dos partidos de oposição. É o PIG, Partido da Imprensa Golpista.

No dia em que o Brasil for um país sério, ninguém será considerado sumariamente culpado após matérias policiais midiáticas. Pouco menos terão de provar que são inocentes. Inclusive quando se tratar de objetivos políticos.

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