30 ANOS EM 30 DIAS – ANO 23 – ADEUS, FACULDADE

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10 de janeiro de 2016 por Lucas Rafael Chianello

Banco universitário: um privilégio num país colonizado, capitalista, autoritário e elitista como o Brasil.

Na época em que o editor-chefe prestou o vestibular, o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) engatinhava, ninguém pensava que um dia teria SiSU (Sistema de Seleção Unificado) e o Fies (Fundo de Financiamento Estudantil) não tinha a abrangência dos dias atuais. Faculdades federais, em regra, com suas difíceis e concorridas provas eram para filhinhos de papai que não precisavam tomar ônibus, não precisavam trabalhar e foram estudar em faculdade pública dizendo que aquilo que é do governo não presta.

Não que o editor-chefe concorde com a ideia de que decepção não mata, ensina a viver, como todo sujeito frustrado gosta de postar no Facebook quando o namoro termina. Mas a decepção é algo pela qual temos de passar quando as coisas não dão certo. Simples assim. A vida não é um mar de rosas.

A decepção do editor-chefe com a faculdade não passa de uma expectativa (que de certa forma ele superestimou) frustrada, como muitas outras frustrações que teve ou terá. Normal, é da vida. Apenas poderia ter sido diferente.

Quando passou no vestibular, pensou que estava iniciando uma nova etapa de sua vida num ambiente científico de discussão e esclarecimento, onde as pessoas, além de profissionais, queriam ser cidadãos, ainda mais quando se tratava de um curso de direito.

Ledo engano.

Claro que vieram amizades, tanto com universitários como com professores interessados em pensar, formular, questionar e tentar construir algo de novo para a sociedade, mas em regra tudo era aceito bovinamente por uma classe média meritocrata que via em concurso público para juiz e promotor a saída para a acomodação para o resto da vida. A mesma classe média muito bem descrita pela Marilena Chaui que diz que funcionário público é vagabundo que não faz nada.

Durante seus primeiros períodos de curso, o editor-chefe viu que os eleitos para o diretório acadêmico não prestavam contas, não promoviam atividades, pouco menos abriam alguma discussão sobre a faculdade ou sobre o movimento estudantil, uma das maiores farsas que atualmente existe no Brasil à direita e à esquerda. Pior do que isso: sequer prestavam contas do dinheiro do DA. Foram embora com um rombo de R$ 20.000,00 deixado, conforme uma espécie de balancete pregado, inclusive, na secretaria do curso.

Muitos diziam que o editor-chefe tinha de lançar chapa para o DA, mobilizar os alunos e liderar a mudança. Chegou à conclusão de que ninguém faz nada sozinho e desfiliou-se do DA.

O mundinho da ilusão universitária ficou ainda menor quando o editor-chefe foi trabalhar e entender como o mundo lá fora funcionava antes de obter o diploma. À essa altura, a faculdade era tão somente para qualificar-se profissionalmente, mesmo. Um desperdício, mas era a realidade. Alguns livros de filosofia já estavam na instante, a leitura de notícia fora da grande mídia já era diária há tempos e ninguém na faculdade estava interessado em valores nobres de cidadania e coletivismo.

A cereja no bolo do convívio com teses superficiais como um espinho de quem se achava filósofo foi um professor dizer, em aula, que na época da ditadura não tinha tortura porque os militares tinham Jesus no coração. Sim, o editor-chefe ouviu isso, nessas palavras.

Após ficar um ano a mais na faculdade para terminar a monografia sobre direito de greve, o editor-chefe discretamente colou grau no dia 16 de dezembro de 2009, numa clara respostas para si mesmo de como queria que seu curso de direito se encerrasse depois de toda a decepção vivida. Apesar dos bons que passaram por ele nesse período, justiça seja feita.

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