A VALIDADE DO VOTO PERANTE O MERCADO

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31 de outubro de 2015 por Lucas Rafael Chianello

Inicialmente publicado no Jornal da Cidade

Na edição de nº 6.102 deste Jornal da Cidade, que circulou entre os dias 4 e 5 de julho deste ano, publicamos o texto “Política x Economia no Berço da Democracia”, no qual discorremos sobre o referendo convocado pelo primeiro-ministro Alexis Tsipras em relação à proposta da troika sobre a dívida grega.

A proposta de Tsipras venceu o referendo, mas o primeiro-ministro grego não conseguiu o acordo almejado quando das negociações em Bruxelas com a Comissão Europeia num contexto de descomunal desvantagem na correlação de forças, haja vista que exceto a Grécia, nenhum dos países integrantes da comissão tinha representantes que não rezassem a cartilha da austeridade.

Por não ter conseguido colocar fim nos pacotes de austeridade, Tsipras renunciou, convocou novas eleições e enfrentou uma dissidência de membros do Syriza que, em homenagem à experiência socialista chilena liderada por Salvador Allende, criaram um novo partido chamado Unidade Popular. Resultado: das 149 cadeiras então conquistadas, o Syriza manteve 145 e formou maioria absoluta junto ao partido de direita nacionalista Gregos Independentes.

Com isso, passou-se um sentimento de que para a Grécia não estar mais isolada na Europa, partidos e coligações anti-austeridade precisariam ser eleitos em outros países.

Foi o que aconteceu em Portugal nas eleições legislativas do último dia 4 de outubro: a coligação pró-austeridade Portugal à Frente, liderada pelo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, perdeu a maioria absoluta do parlamento português. Convocado pelo presidente Aníbal Cavaco Silva para formar o governo, Passos Coelho não obteve maioria. Somados os votos do Partido Socialista, do Bloco de Esquerda e da Coligação Democrática Unitária (Partido Comunista Português e Partido Ecologista Os Verdes), a esquerda portuguesa teria condições de formar maioria para governar, pois obteve 122 das 230 cadeiras do parlamento. Entretanto, num golpe de Estado duramente criticado até mesmo por diversos grupos de comunicação da Europa, Cavaco Silva deu posse, ontem, às 12h de Lisboa, a Pedro Passos Coelho, que no XX Governo Constitucional (Constitucional?) continuará com a aplicação dos pacotes de austeridade que provocam uma profunda recessão na economia portuguesa.

A submissão de diversos países ao receituário de austeridade da troika é uma grande demonstração, de nosso tempo, do divórcio entre o capitalismo e a democracia. A partir do momento em que forças políticas contrárias à austeridade despontam como alternativa a uma política econômica de desemprego e recessão profundos, há um esforço colossal para que a vontade do povo expressa nas urnas não seja forte o bastante para anular os sórdidos planos econômicos de grandes grupos privados que infiltram agentes na política (que eles tanto negam) para se tornarem credores de países que, ao não cumprirem determinadas condições desses grupos econômicos, submetem seus povos às mais desumanas chantagens, seja de ordem econômica, social, política ou jurídica.

No novembro que se inicia, haverá eleições na Espanha. Uma possível vitória do Podemos, partido de esquerda anti-austeridade liderado pelo jovem Pablo Iglesias, será mais uma demonstração do que prevalecerá: a vontade do povo ou do mercado. Antes ou depois do pleito.

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