POLÍTICA X ECONOMIA NO BERÇO DA DEMOCRACIA

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4 de julho de 2015 por Lucas Rafael Chianello

“A política é a única força que rivaliza com o mercado” – Lula.

O mundo voltará seus olhos à República Helênica, a Grécia, neste domingo. O primeiro-ministro Alexis Tsipras, da Syriza (uma coligação de partidos de esquerda) convocou um referendo no qual perguntará à população se ela aceita as condições da troika sobre a negociação da dívida grega.

Em 2009 a Grécia, governada pela direita, declarou a existência de uma crise econômica sem precedentes que justificariam contrair uma dívida com a troika, termo originado do russo que significa uma composição de três entes. No caso, a Alemanha, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional. A contração dessa dívida ocorreu a partir daquilo que ficou conhecido como “pacote de austeridade”: a troika entrou com o empréstimo, que em tese sanaria a economia, sob a condição do país promover cortes e diminuições na aposentadoria, nas pensões, nos salários e nos postos de emprego, tanto públicos como privados. O resultado desse endurecimento puramente econômico foi o aumento exponencial da recessão, com altíssimas taxas de desemprego e encolhimento do Produto Interno Bruto.

Além disso, houve um crescimento de ideias discriminatórias e de nacionalismo exacerbado da extrema direita que culminaram na criação da Aurora Dourada, um partido neonazista que hoje é a terceira força do parlamento grego.

A necessidade de garantia de direitos individuais, sociais e trabalhistas em contraposição a uma realidade de desemprego, recessão profunda e ausência dos direitos fundamentais levaram, nas últimas eleições, os gregos a escolher 149 deputados da Syriza sobre os 300 assentos do parlamento. A principal promessa de campanha da Syriza, liderada por Tsipras, foi interromper o pacote de austeridade. Dentro dessa promessa, a auditoria da dívida grega conta com a ajuda da brasileira Maria Lucia Fatorelli, uma auditora aposentada da Receita Federal que já tinha exercido colaboração semelhante no governo do presidente equatoriano Rafael Correa.

Após a Segunda Guerra Mundial, um dos países que perdoou a dívida alemã foi a Grécia. Hoje, com a Alemanha credora e a Grécia devedora, Tsipras, ao pedir o perdão da dívida, declarou inteligentemente, diante da chanceler alemã Angela Merkel, que o nazismo, fruto da crise econômica alemã do período entre guerras, é hoje a terceira força de seu parlamento, de modo que o não perdão da dívida grega poderia levar a consequências políticas que se tornariam inevitáveis.

Na Venezuela, em 1989, medidas neoliberais do presidente Carlos Andrés Perez, recomendadas por organismos financeiros internacionais, arrocharam a economia popular, o que fez explodir o caracazo, uma revolta generalizada da imensa maioria pobre da população que terminou com centenas de mortos. No Brasil, o receituário do FMI aplicado por FHC nos anos 1990 gerou aumento exponencial dos juros, do desemprego e da inflação, controlada num primeiro momento.

A statue of Athena, patron of Athens, is seen near a Syriza party election campaign kiosk

Painel da Syriza e a estátua de Atena: emblemático.

Os pacotes de austeridade, principais diretrizes do atual estágio ideológico do neoliberalismo, são a maior expressão da ingerência externa de grupos financeiros internacionais sobre economias nacionais. Na última segunda-feira, milhares de gregos ocuparam a Praça Syntagma para manifestarem apoio a proposta do governo Tsipras de não ceder às exigências da troika. Caso a maioria dos gregos vote Oxi (Não), o berço da democracia poderá ser também, no século XXI, o berço da vitória da política sobre a economia.

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