ESQUERDA RIVOTRIL

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28 de março de 2015 por Lucas Rafael Chianello

Após a duríssima reeleição de Dilma Rousseff, setores sempre opositores a tudo (a chamada “extrema-esquerda”) trataram de chamuscar ainda mais Dilma, Lula e o PT, o que às vezes faz parecer desnecessária uma oposição de direita. Claro que não devemos simplesmente dizer amém, mas também precisamos pensar estrategicamente.

Enquanto as nomeações de alguns ministros são consequências de um modelo que se pretende suprimir através da reforma política proposta por Dilma após as manifestações de junho de 2013, no caso do ajuste fiscal estamos longe da austeridade grega tropical. Enquanto Alexis Tsipras corrige uma política econômica que encolheu o PIB grego, demitiu funcionários públicos e diminuiu salários e pensões em troca do resgate da troika, no Brasil o salário mínimo é o maior dos últimos 50 anos, 91,5% das negociações salariais tiveram êxito em 2014 e ao contrário dos anos de FHC, hoje somos credores internacionais. Porém, haja histeria em razão do aumento da carência do seguro desemprego quando “Nunca antes na história desse país” tivemos taxa de pleno emprego.

O PT precisa melhorar enquanto partido. A ida de quadros para mandatos e cargos governamentais afastou o PT da sociedade, o que permite à direita se aproveitar para agredir o partido e o governo. A sociedade civil tem sim de se organizar além do PT para defender conquistas que não são do PT, mas da classe trabalhadora. Porém, dar o ciclo do PT como encerrado é um erro, pois o fim desse ciclo levaria a direita ao poder. Hoje não há uma força de esquerda alternativa ao PT em condições de assumir o processo político brasileiro.

Porém, a crença de que primeiro é preciso derrubar o PT, para posteriormente enfrentar a verdadeira direita, leva setores da chamada extrema-esquerda a negarem o PT de um modo neurótico no qual não se admite qualquer defesa do partido. Discussões que poderiam ser sadias e ajudar a melhorar as coisas são transformadas em lamúrias coletivas que banalizam a política, tornam o ambiente pesado e nos faz pensar que a lucidez do debate só voltaria através de medicação antidepressiva (com todo respeito aos que sofrem dessa terrível e indesejável doença), tamanha a necessidade da melancolia. No pronunciamento em rede nacional por ocasião do Dia Internacional da Mulher, Dilma deu a senha: “Temos de encarar as dificuldades em sua real dimensão e encontrar o melhor caminho de resolvê-las, pois se toda vez que enfrentarmos uma dificuldade pensarmos que o mundo está acabando ou que precisamos começar tudo do zero, só faremos aumentar nossos problemas. Precisamos transformar dificuldades em soluções. Problemas temporários em avanços permanentes.”

HHipócritaA direita liderada pela mídia golpista tão somente cumpre seu ingrato papel de canalha no jogo político: tentar destruir todas as conquistas da classe trabalhadora desde a eleição de Lula. Age conforme sua natureza. O problema nisso tudo é ver que sua tarefa fica mais fácil quando um governo de esquerda é desgastado por uma própria esquerda que necessita de atuar como se seus militantes e intelectuais estivessem reunidos numa discussão de relação para vociferarem suas iras. Certa vez, Brizola se referiu à “Esquerda que a direita gosta”. Essa esquerda, hoje, é a esquerda rivotril: aquela que precisa lamentar, fazer o discurso de madalena arrependida e estar permanentemente em estado de melancolia e pessimismo para que nessas condições encontre algum defeito em alguma coisa para se posicionar politicamente, o que é bem diferente de um militante que analisa o contexto com senso crítico.

A revolução não será televisionada. Pouco menos começará em algum divã.

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2 pensamentos sobre “ESQUERDA RIVOTRIL

  1. walkyria araujo disse:

    CONCORDO com o que vc escreveu, vivi isso em outros tempos e sinto que novamente estamos entrando no jogo deles…….

  2. Belo texto, gosto do formato atual do PT, embora não concorde com várias coisas, afinal perfeição é utopia, mas antes assim que o que era em sua era romântica, um PSOL, de lógica quase infantil, de um maniqueísmo bobo (só nós somos honestos! Esquecendo que um partido é composto por pessoas e basta um fdp pra acabar com a tese do “somos todos honestos”).
    Lula foi de grande valia pra essa variação do PT, Lula sabia que sem um consenso e/ou “consenso” com a direita, semi-direita, “democratas” etc., seu governo não seria possível, falta à Dilma o traquejo do xaveco que Lula tem, mas se colocar as pessoas que sabem fazer isso nos cargos necessários, dá pra aplacar a fúria direitista aos poucos, aliás, acho que a febre pró-impeachment já está arrefecendo….

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