MICARETA FASCISTA, O ROLEZINHO DOS COXINHAS

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23 de março de 2015 por Lucas Rafael Chianello

O protesto da classe média e da elite acontecido domingo passado no Brasil, principalmente em São Paulo (SP), revelou duas faces: uma, de como alguns pretendem derrubar Dilma. Outra, de quem são os que querem derrubar Dilma.

A pretensão, o como fazer, é claro: o golpe de Estado. Não são como Lula, que aceitou perder em 1989, 1994 e 1998 e diante da quarta derrota eleitoral consecutiva, tentam criar alguma saída para que os governos do PT não tenham continuidade. Agora, falam escancaradamente em intervenção militar e até mesmo uma faixa estampada com a suástica nazista foi vista nas passeatas dos opositores de Dilma. Motivo suficiente para encerrar qualquer discussão plausível sobre o assunto.

No entanto, como há vida e política após atos insanos de eleitores da oposição que estarrecem qualquer pessoa que possua noção do ridículo, assim como houve vida e política após o fim do nazismo na Alemanha, é preciso deixar às claras quem representa o quê no atual momento político vivido pelo país.

Quem e por que querem derrubar Dilma? A questão não é simplesmente o Bolsa-Família, o Mais Médicos, o ProUni, o Enem, o Ciência Sem Fronteiras, o Minha Casa Minha Vida, o PAC, pouco menos a corrupção, mas sim o resultado dessas políticas: a melhora das condições de vida da classe trabalhadora brasileira, algo que os governos Lula e Dilma, a partir de critérios da SAE (Secretaria de Assuntos Estratégicos), chamam de ascensão à nova classe média.

Querem derrubar Dilma porque os resultados dessa política desmontam não só o discurso neoliberal da mão invisível, mas a própria tradição conservadora existente na sociedade brasileira que concebe que tudo aquilo que conquistamos deve ser fruto do nosso próprio esforço (meritocracia), o que não passa de puro cinismo sócio econômico. Se um filho de família rica tem alguém que lhe pague os estudos, cursos extracurriculares e muitas vezes sequer entra no mercado de trabalho porque a família tem o próprio negócio e ele apenas o administra, o investimento da família nele é tido como resultado de trabalho, dedicação e competência. Porém, quando o Estado investe na estrutura e formação daqueles cujas famílias não possuem condições de investir em seus filhos, estamos diante, para os privilegiados, de políticas assistenciais que “dão o peixe e não ensinam a pescar” em troca de voto. A cinismo persiste quando afirmam que os serviços públicos são onerosos e ineficientes, mas apenas aceitam que a formação dos filhos da classe média e da elite se dê em universidade pública.

É preciso endurecer, sem perder a perspectiva democrática jamais. Que se debata toda e qualquer proposta política de qual matiz político for, mas a democracia não negocia a si mesma.

No último dia 10 de dezembro de 2014, Dia Mundial dos Direitos Humanos, a Comissão Nacional da Verdade entregou o relatório final de suas atividades à presidenta Dilma Rousseff, do qual constam os crimes de lesa pátria e lesa humanidade cometidos pela ditadura militar. O direito de votarmos em nossos governantes foi conquistado às duras penas, a ponto de nossa própria presidenta ter sofrido tortura durante o período de exceção.

Sem prejuízo das críticas necessárias, como por exemplo a urgente revisão da Lei de Anistia, o dia 15 de março de 1985 é de importante marco para os brasileiros: a posse de um civil na presidência da República, passo primordial para que voltassem a ser realizadas eleições regulares em nosso país. 30 anos depois, numa data que deveria ser comemorativa, registrou-se algo que diversos veículos internacionais de comunicação descreveram como manifestação do ódio e do rancor: num país que possui a segunda maior população negra do mundo (atrás apenas da Nigéria), um levante de brancos, induzido por grupos de comunicação que apoiaram a ditadura, saiu às ruas para pedir intervenção militar e proferir impropérios contra uma presidenta legitimamente eleita.

De algumas coisas só se tem clareza quando elas passam, apesar do ideal ser percebê-las na hora. Durante a semana foi possível verificar que diversas pessoas que diziam protestar contra a corrupção não passam, na verdade, de figurões que já tiveram seus minutos pós-modernistas de fama em escândalos de corrupção noticiados pelo editorial policial da imprensa falada e escrita, como por exemplo um parente do atual governador do Paraná (o tucano Beto Richa), que após protestar contra a corrupção no domingo foi preso no dia seguinte.

Claro que jamais se pode subestimar a força política de um movimento, por mais caricato que ele seja, a ponto de um protesto relacionado à política institucional ter servido de motivo para mulher pelada dar o ar da graça na Avenida Paulista. Protesto esse sintetizado pelo falso patriotismo de Copa do Mundo que se denota pela camiseta da seleção brasileira de futebol usada pela imensa maioria dos manifestantes (gol da Alemanha!). Motivos suficientes para se achar que tudo não passou de uma micareta fascista da classe média e da elite branca, que tenta se colocar como autoridade de conhecimento político, mas nos últimos cinco anos leu, no máximo, 50 Tons de Cinza.

Tamanho é o fascismo a ponto de se fazer toplesse para policial. Contra a corrupção vale tudo, até mostrar a bunda.

O fascismo chega ao ponto de se fazer topless para policial. A seriedade contra a corrupção é tanta que vale até protestar mostrando a bunda. Protesto ou micareta?

O Brasil, atualmente, é um ator primordial nas relações internacionais. O sociólogo italiano Domenico de Masi dizia que depois dos modelos europeu e americano, chegou a hora do mundo experimentar o modelo brasileiro. Um dos motivos, para de Masi, é justamente a realização de eleições frequentes e regulares no nosso país. Diante disso, sair às ruas com faixas e cartazes que remetem a ditaduras e ao próprio nazismo não é nada mais do que optar pelo subdesenvolvimento. Quer queira, quer não, via de regra, os países do mundo que se estabeleceram como desenvolvidos e civilizados foram aqueles que fortaleceram suas democracias, principalmente após a Segunda Guerra Mundial.

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