SENNA, 55

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21 de março de 2015 por Lucas Rafael Chianello

Em primeira pessoa

Sinceramente, mais uma vez me deu azia. Mas besta sou eu de esperar algo diferente.

Hoje Senna faria 55 anos.

Todas as vezes em que há uma data de recordação sobre o Senna (geralmente os dias do nascimento ou da morte), vem à tona um messianismo que deturpa e camufla aquilo que o Senna realmente foi: um exímio competente daquilo que sabia, que era pilotar carros da mais alta categoria do automobilismo mundial.

Se ele era uma boa ou má pessoa, isso é problema de quem convivia particularmente com ele, o que não é o meu caso. O que posso afirmar é que ele nunca me prejudicou, o que para mim é o bastante. Sua qualidade de homem público se dá a partir de sua condição de piloto de corridas.

Senna, no final das contas, é a antítese da célebre frase de Bertold Brecht: “Infeliz do povo que precisa de heróis”.

Bom, vamos lá. Ao invés de ficar entupindo a internet com frases feitas e lágrimas virtuais de crocodilo, acho que vem a calhar contar a história de um episódio que vivi dias atrás. Do contrário, eu passaria em branco a data por achar que assim seria de maior serventia.

Há poucos dias me mudei para onde resido atualmente. No momento em que a mudança chegou, o pessoal da transportadora me telefonou. Eu estava a cinco minutos à pé de onde moro, numa oficina mecânica, para que consertassem a direção hidráulica do carro do meu pai.

Cheguei na minha nova casa, comecei a descarregar as coisas (que ainda bem não são muitas) e dentre elas havia um quadro do Ayrton Senna, ainda na época da Lotus. Minhas tias-avós, há um bom tempo atrás, mandaram ampliar a imagem, colocaram num quadro e me deram de presente.

Iniciamos o descarregamento das minhas coisas quando então o chefe deles, o Alexandre, viu o quadro e ficou emocionado. Ele disse que rezava para o Senna todos os dias por causa do trabalho desenvolvido pelo Instituto Ayrton Senna em benefício dos mais necessitados. Alexandre, um cristão temente a deus, não queria que a caridade feita fosse esquecida pela suposta descrença do tricampeão em deus. Coube a mim dizer que (ao contrário de algumas fofocas da época) Senna era muito apegado em deus, algo hoje publicamente incontroverso, conforme se verifica nos materiais documentais sobre Senna após a sua morte.

Aqui cabe um registro curioso: quando Senna ergueu a bandeira do Brasil pela primeira vez após vencer um GP, foi um poçoscaldense, que morava nos EUA junto com o Alexandre, que o deu o pavilhão nacional. O Alexandre disse que se recordou do episódio e que não foi ver a corrida porque estava sem dinheiro. Se ele me permite, uma demonstração de que nos EUA, a polícia do mundo, as coisas não são tão possíveis assim.

Apesar de não gostar da visão messiânica que se tem sobre Senna, a devoção do Alexandre me tocou. Então, eu o perguntei se ele gostava mesmo do Senna. Sem conotação imbecil, como dizia meu avô materno, “no duro”. Ele disse que sim.

Cheguei então à conclusão de que aquele quadro era mais importante para ele do que para mim, dei-lhe e pedi apenas uma coisa: que ele recordasse de Senna pelo ótimo piloto que ele foi. À essa altura, ficou difícil para ele conter algumas lágrimas.

O Alexandre é uma boa pessoa. Um batalhador da vida que presta um serviço que promove aquilo que mais temos de digno em nossas vidas: colocar dentro de nossas moradas (alugadas ou próprias) os nossos pertences, o que de mais íntimo temos para sobreviver.

Quando foi embora, o Alexandre ordenou que um dos seus funcionários enchesse uma garrafa que veio na mudança com água que eles tinham pegado numa bica na estrada. E disse-me que quando eu quisesse, poderia falar com ele para pegar o quadro de volta.

Desnecessário, caro Alexandre. Agora o quadro é seu. Coloque-o num lugar de destaque para que quando eu o visite, eu possa recordar de quando te presenteei.

Algumas coisas que temos podem ser mais importantes para outros do que para nós.

Algumas coisas que temos podem ser mais importantes para outros do que para nós.

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