O DIA EM QUE HUGO CHÁVEZ VENCEU O CARNAVAL

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18 de fevereiro de 2015 por Lucas Rafael Chianello

Em primeira pessoa

Estávamos em fevereiro/março de 2006. Eu, recém tornado adulto conforme as regras do Código Civil, já tinha escolhido ser de esquerda na adolescência. E, nada contra, nunca gostei muito de carnaval. Sempre o aproveitei para utilizar meu tempo livre com coisas que nem sempre o cotidiano me deixam fazer. No final das contas meu sonho é um só: que vivamos permanentemente naquilo que Domenico de Masi chama de ócio criativo.

Aos que não conhecem Poços de Caldas, minha cidade natal, localizada no sul de MG, o carnaval de lá parece ser algo de cartas marcadas no que se refere aos desfiles das escolas de samba da cidade. Quase sempre vence a Saci-Pô em constância pior do que a alternância restrita a Barcelona e Real Madrid no campeonato espanhol.

Em 2006 a Câmara Municipal de Vereadores aprovou uma subvenção destinada ao Grêmio Recreativo Escola de Samba Beija-Flor, a famosíssima Beija-Flor de Nilópolis, maior vencedora da era do sambódromo. A justificativa da subvenção, liderada pelo então vereador Marcus Togni (na época no PPS), era de que Poços de Caldas seria o tema do samba-enredo. Togni, com participação ativa na Saci-Pô e na AESB (Associação da Escolas de Samba e Blocos Caricatos), sempre foi homem de forte influência no carnaval poçoscaldense.

Ludibriar a população (ou tentar ludibriar) com o discurso de que Poços de Caldas seria o tema do samba-enredo da Beija-Flor resultou, inclusive, numa visita do intérprete oficial da escola, o Neguinho da Beija-Flor, com direito a entrevista à imprensa local no Palace Hotel, onde Getúlio Vargas hospedava-se quando visitava Poços de Caldas na década de 1930.

Na época, salvo engano nenhuma pesquisa de opinião foi feita, mas era visível o semblante de decepção dos poçoscaldenses quando divulgado o samba-enredo: o tema era a água e Poços de Caldas apenas constava em alguns versos da letra. E para dar ainda mais a sensação de que tudo foi escondido, a Beija-Flor foi para a avenida quando o dia já raiava. Poucos foram os poçoscaldenses que vararam a noite para ver o desfile ou que colocaram o relógio para despertar.

Na época eu namorava uma filha de um colega de trabalho do meu pai com quem tinha estudado na infância. Varei a noite, cochilei e estava com tanto sono na hora da Beija-Flor desfilar que descumpri o combinado: não a telefonei. Tanto por dó de acordá-la como por querer que ninguém visse aquilo. Ela nem ficou chateada e disse que a mãe dela tinha assistido.

O pouco do meu envolvimento com aquele carnaval foi tipicamente político. Para desgosto dos estancieiros (denominação para coxinhas em Poços de Caldas), embasados no discurso de que eu estava torcendo contra Poços de Caldas, eu queria ver a Beija-Flor perder. E não estava torcendo contra Poços de Caldas, não. Torci contra aqueles que nos contaram uma coisa e fizeram outra.

Porém, justamente no ano em que resolvo politizar minha torcida no carnaval, o Grêmio Recreativo Escola de Samba Unidos de Vila Isabel resolve não colocar na avenida um samba-enredo do Martinho da Vila para apostar num tema sobre integração latino-americana, o que segundo algumas fontes de informações rendeu patrocínio de Hugo Chávez, presidente da República Bolivariana da Venezuela, através da PDVSA, a petrolífera estatal.

Patrocínio de Chávez e escola de samba do bairro onde cresceu meu avô paterno após imigrar da Itália: argumentos de sobra para acompanhar o carnaval e torcer para a Vila Isabel.

Eu dizer que sei alguma coisa de carnaval é a mesma coisa que sujeito dizer que passou a entender o surf por causa do Gabriel Medina: a mais pura cascata. Não sei avaliar nenhum dos quesitos, não sei dizer se a nota dos jurados é coerente com o que se passou na avenida. Apenas queria ver a Vila Isabel ganhar tão somente por causa da letra do samba-enredo, que eu sequer cheguei a ouvir. Apenas li.

Depois de encontros diariamente regulares com a minha ex-namorada durante o carnaval, combinei com ela que não nos veríamos na quarta-feira de cinzas porque eu estudaria para uma prova de processo civil. Claro, interrompi os estudos para ver a apuração das notas das escolas de samba.

E lá fui eu assistir a apuração. Sabe-se lá porque, minha irmã estava junto na ocasião. Hoje somos bem mais próximos, conversamos bem mais, mas na época ficávamos mais juntos em ocasiões de família.

Começa a apuração e logo nos primeiros quesitos meu primeiro momento de êxtase: a Beija-Flor perdia pontos e despencava na classificação. Lá em cima, a Vila Isabel brigava pelos primeiros lugares.

Divulga-se quesito, passa-se quesito e a disputa afunila-se entre a Vila Isabel, a Grande Rio e a Viradouro. Apreensão que aumentava com poucas notas para o final e eu já no delírio de querer a vitória a fórceps num momento histórico em que governos socialistas e progressistas de esquerda da América Latina venciam eleições para chegarem no poder.

Chávez Vila Isabel

Chávez aplaude uma passista da Vila Isabel.

Tudo indefinido e quando soltam a última nota a Vila Isabel, empatada com a Grande Rio, é anunciada como a grande campeã. O critério de desempate? Justamente o samba-enredo! “Soy loco por ti América – A Vila canta a latinidade” me fazia matar dois coelhos numa cajadada só: Chávez, a coqueluche da esquerda do momento, venceu, e a subvenção sulfurosa à Beija-Flor de Nilópolis perdeu.

Vivi o meu maior êxtase em carnavais naquele momento. Em estado de graça, pulava, berrava, dava tapas nas portas dos quartos de casa. Muito provavelmente minha irmã nem se recorde que talvez ela tenha cogitado, por alguns segundos, verificar na lista telefônica o número de algum sanatório.

Já no domingo, quando eu tomava um lanche na casa da minha ex-namorada, o telejornal noturno dominical da emissora oficial da ditadura no Brasil noticiava que o presidente Chávez, no seu famoso Alô Presidente, tinha feito um link com a quadra da Vila Isabel e na conversa com um representante da escola, a parabenizava pela conquista.

Eu estava vingado. Chávez, sem jamais ter ouvido falar de mim em vida, foi o grande responsável para que eu mostrasse aos meus conterrâneos a farsa que foi Poços de Caldas jamais ter sido o tema central do samba-enredo de uma escola de samba do maior carnaval do mundo.
– – –

Para saber mais sobre a vitória de Hugo Chávez no carnaval carioca de 2006:

SAMBA-ENREDO G.R.E.S. BEIJA-FLOR DE NILÓPOLIS 2006

VILA ISABEL NA SAPUCAÍ EM NOME DA INTEGRAÇÃO LATINO-AMERICANA

TÍTULO DA VILA ISABEL É VITÓRIA POLÍTICA DE HUGO CHÁVEZ

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