DROGAS: DEBATE SEM HIPOCRISIA

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18 de janeiro de 2015 por Lucas Rafael Chianello

Um dos primeiros finais de semana no Brasil ficará marcado no noticiário policial pela aplicação da pena capital ao brasileiro Marco Archer Cardoso Moreira, na Indonésia, condenado por tráfico de drogas. Ao contrário de outros casos nos quais um nacional de um país é preso no estrangeiro e geralmente alega inocência, Marco contou ao repórter Renan Antunes de Oliveira como se deu sua prisão, oportunidade na qual admitiu a sua culpa.

Os relatos de Marco lembram muito o filme Profissão de Risco, no qual Johnny Depp reproduz a vida do traficante George Jung, um emissário do cartel de Medellín nos EUA. Em diversas cenas Depp interpreta a submissão de Jung a revistas nas alfândegas dos aeroportos. No entanto, o destino é o mesmo do brasileiro Marco Archer, na Indonésia: a prisão.

Recorde-se desde já que ser brasileiro condenado a pena capital na Indonésia não foi um privilégio de Marco. Rodrigo Muxfeldt Gularte também encontra-se no corredor da morte daquele país após ser condenado por tráfico de drogas.

Incrível como a incoerência e o sadismo ainda reina nas redes sociais durante a repercussão do caso. Muitos que na juventude deram uma bolinha e um tapinha (respectivamente, na gíria, fumar maconha e cheirar cocaína) aplaudem efusivamente a Indonésia, como se no Brasil tivessem comprado entorpecente alguma vez de forma autorizada em lei. Até onde sabemos a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) reclassificou o canabidiol como medicamento apenas na última terça-feira.

Pior ainda é ver a mídia nos estimular a memória seletiva por causa de 13 quilos de cocaína mesmo com todos os custos que demandam uma viagem internacional a um país que para nós encontra-se nos confins do Planeta Terra. Entretanto, até agora, mesmo que a mídia não tenha fé pública, não se sabe porque nenhum repórter investigativo dos Aqui Agora, Cidade Alerta e Brasil Urgente da vida não destrincharam para nós a história do helicóptero do pó apreendido na fazenda dos Perrella, íntimos aliados políticos de Aécio Neves, enquanto muitos daqueles que fizeram campanha por Aécio nas últimas eleições exaltam votos de solidariedade com as autoridades indonésias.

Crônicas da indignação seletiva de quem é contra a regulamentação do aborto no Brasil, mas defende um efusivo debate de modo que o Estado brasileiro passe a prever em seu ordenamento jurídico a pena capital, pois méritos da classe média e da intelligentsia da conta bancária de seis dígitos que pode recorrer a uma ponte aérea Rio-Londres ou São Paulo-Amsterdã para se submeter a um procedimento médico que pobre não pode fazer no SUS (Sistema Único de Saúde) em razão da temática da legislação basear-se em premissas religiosas e não em saúde pública ou autodeterminação da mulher.

Pode-se até entender o trauma histórico que países da Indochina e do sudeste asiático possuem do convívio com a droga em razão das guerras do ópio no século XIX. Entretanto, viver pressupõe resolver problemas. As mais diversas áreas do conhecimento humano servem para que estudemos os problemas e apliquemos a solução aos mesmos.

Um breve estudo irá nos demonstrar que o combate manu militari ao tráfico de drogas é uma premissa do governo do presidente estadunidense Richard Nixon dentro de um contexto de Guerra Fria, no qual a droga consumida por soldados estadunidenses que serviam no sudeste asiático, especialmente no Vietnã, passou a ser enviada aos EUA. Além disso há também o lobby de um Congresso (o mais caro do mundo) eleito por financiamento privado de campanha influenciado pelo moralismo protestante caracterizado pelo discurso de defesa da família, da moral e dos bons costumes.

Tudo isso na verdade camuflava a associação da CIA (Central de Inteligência Americana) a traficantes locais para justificar intervenções militares, ou seja, desde o início a derrota da guerra contra o tráfico de drogas, as Cruzadas de nosso tempo, é irreversível, e ainda não demos conta disso. Vide o emblemático caso do general Noriega, que depois de ser útil aos EUA foi literal e prontamente removido da presidência do Panamá sob a acusação de chefiar o tráfico de drogas.

Besteira, portanto, exalar que os brasileiros Marco Archer Cardoso Moreira e Rodrigo Muxfeldt Gularte deveriam morrer por traficar drogas. Os que se posicionaram favoráveis à pena capital em ambos os casos fizeram, sem saber, propaganda de uma premissa colocada em prática pelos EUA nos anos 1970 da qual traficantes de drogas, úteis para justificarem intervenções militares ianques, foram os maiores beneficiados.

Diante da execução de Marco Archer Cardoso Moreira e da iminência da execução de Rodrigo Muxfeldt Gularte, restam como exemplo de convívio com as drogas o Uruguai e a Holanda, onde abrandou-se a premissa de guerra ao tráfico para que o Estado regulamentasse ao menos o comércio e o consumo da maconha. Algo muito mais vantajoso para o próprio Estado, que ao invés de recolher impostos do contribuinte para financiar um combate militarizado contra as drogas perdido desde os primórdios, poderá taxar o comércio de entorpecentes e aplicar o imposto recolhido em políticas públicas de saúde, por exemplo.

Além de Marco Archer Cardoso Moreira, também foi condenado por tráfico de drogas e executado no dia de ontem o holandês Ang Kiem Soel, o que levou aos chefes dos poderes executivo de Brasil e Holanda convocarem seus respectivos embaixadores para consulta, o que em termos diplomáticos representa um agravo à atitude de outro país.

Este Blog Chianéllico não tem notícias de como o Estado holandês portou-se em relação ao caso ao longo do tempo, mas sabemos que além da convocação do embaixador do Brasil na Indonésia, a própria presidenta Dilma Rousseff fez um pedido de clemência ao presidente da Indonésia Joko Widodo, o qual não foi atendido.

Diante da execução, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, declarou que a pena aplicada ao brasileiro irá gerar uma sombra nas relações entre Brasil e Indonésia. Importante ressaltar que a orientação de entidades internacionais de direitos humanos é aplicar a pena capital, no máximo, em casos de crimes contra a vida ou que resultem em lesão corporal grave.

Infelizmente, mais uma vez as coisas ocorreram como sempre: a generalização do discurso de ódio e clamor pela previsão da pena capital em nosso ordenamento jurídico diante de um caso em que não há qualquer violência. Muitos que sem qualquer conhecimento de causa comportam-se como “juristas de padaria”, na melhor definição do leitor deste Blog Chianéllico Fabricio Damazio. Depois, claro, de assistirem programas policiais de TV aberta no final da tarde.

A tal guerra contra o tráfico iniciou-se perdida, com discursos moralistas de defesa da família e dos cidadãos de bens, baseados na austeridade defendida por setores religiosos conservadores, que nos utilizam como massa de manobra para na verdade fortalecer algum sujeito oculto que continua a ganhar algo com a sacrossanta guerra contra o tráfico.

Quem sabe um dia possamos discutir a questão sem suposições imediatas e com mais conhecimento de causa. Alguns, neste domingo, estarão em seus lares, defendendo a pena capital por tráfico de drogas aplicada pela Indonésia a um brasileiro, enquanto tomam sua cervejinha no almoço ou churrasco de domingo junto da sagrada família. Mal sabem que há diversos estudos e estatísticas que comprovam que o álcool é a principal porta de entrada para o satânico submundo das drogas.
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Para saber mais sobre a execução do brasileiro Marco Archer Cardoso Moreira e do combate militarizado ao tráfico de drogas:

DILMA APELA AO PRESIDENTE DA INDONÉSIA PELOS DOIS BRASILEIROS CONDENADOS À MORTE

MAURO VIEIRA AFIRMA QUE EXECUÇÃO DE BRASILEIRO GERA SOMBRA NA RELAÇÃO ENTRE BRASIL E INDONÉSIA

INDONÉSIA NEGA CLEMÊNCIA A BRASILEIRO, MAS PEDE À ARÁBIA SAUDITA

ENTENDA O QUE É O CANABIDIOL

POR QUE UM BRASILEIRO VAI SER FUZILADO NA INDONÉSIA

O PERFIL DE MARCO ARCHER POR UM JORNALISTA QUE CONVERSOU COM ELE 4 DIAS NA PRISÃO

BRASILEIRO MARCO ARCHER É FUZILADO NA INDONÉSIA

GUERRA CONTRA AS DROGAS: OS EUA QUEREM REALMENTE VENCÊ-LA?

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