SAUDADES DO OLOF PALME

Deixe um comentário

10 de dezembro de 2014 por Lucas Rafael Chianello

Por Eliete Ferrer.

Vivi na Suécia na época do Olof Palme, quando se privilegiavam os valores humanos. As diferenças de classe, naquela época, não eram acintosas. Os menos favorecidos eram os jovens estudantes. Lá, ao completar dezoito anos, filho ou filha tratam de ter sua própria casa, ficam independentes da família: ou trabalham ou estudam. Se estudam, vivem de bolsa do governo (empréstimo) até terminarem os estudos e começarem a trabalhar. Depois de alguns anos, a bolsa começa a ser cobrada em suaves prestações…

Nunca tinha morado num país com tão alto padrão de vida, onde saúde e educação eram, de fato, direito de todos. Agora, por falta de tempo, não tenho condições de descrever como aquela sociedade funcionava. A classe trabalhadora, depois de muita luta por direitos, tinha alcançado patamares nunca imaginados por mim, no mundo capitalista.

Sou professora desde os dezessete anos e gosto muito de dar aulas. Meu primeiro emprego, em Estocolmo, foi limpar o Museu Nacional. Depois, trabalhei como carteira, fui funcionária dos correios, professora, tradutora, intérprete… Fui professora de língua materna. O governo sueco pagava para eu acompanhar, nas creches, os filhos de brasileiros ou portugueses, para brincar com eles em Português. Eles sabiam que, se a criança falasse bem o idioma materno, ficaria mais feliz e seria um cidadão mais integrado. A criança permanecia na creche de oito meses até os seis anos de idade. Nas escolas de primeiro grau, eu ensinava português, desde a alfabetização até a nona série.

Impressionou-me a qualidade do ensino público e dos materiais pedagógicos. Escolas de um único turno: a criança entrava às sete da manhã e saía às quatro da tarde. Refeições? A instituição oferecia café-da-manhã, almoço e lanche. O material permanecia na sala de aula e a criança recebia tudo, desde lápis, cadernos e livros, ou o que fosse necessário. Todas as salas de aula tinham, além do quadro negro, quadro de pilot, quadro com pentagrama (pauta musical), carteiras confortáveis, instrumentos musicais, piano ou órgão, televisão… Década de setenta! Um luxo, se comparadas às escolas de hoje, aqui, mesmo as particulares. Imagino que hoje, lá, cada criança tenha seu computador…

Abre parêntesis. A situação jurídica de brasileiros que, depois do golpe do Chile, tinham ido para a Alemanha Ocidental – República Federal da Alemanha, na época, era muito precária. Sofriam todo tipo de constrangimento, pressão, coação, perseguição mesmo. Havia sempre a ameaça de expulsão do país. Por exemplo, na ocasião da Copa do Mundo de 1974, eram obrigados a comparecer, até três vezes por dia, à delegacia, em Berlim, nos dias de jogos do Brasil. Por tal humilhação passaram o Reinaldo e a Dora, em cuja casa, no Chile, eu morei, assim que cheguei naquele país em fins de agosto de 1973. Em junho de 1976, eles ainda não tinham recebido o asilo político, quando a Dora suicidou-se, ao atirar-se sob um trem em uma estação do metrô de Berlim.

Depois do suicídio da Dora, Maria Auxiliadora Lara Barcellos, a Lilliam, irmã do Reinaldo, que vivia na Suécia, escreveu carta ao Primeiro Ministro Olof Palme, onde pedia que a seu irmão Reinaldo fosse concedido asilo e que ele fosse retirado de Berlim. A Lilliam recebeu, quase imediatamente, resposta pessoal e positiva do Olof Palme. Ele, além de dar ao Reinaldo todas as instruções de como devia proceder para sair da Alemanha, enviou-lhe documento de viagem sueco, concretizando, ao mesmo tempo, seu asilo político na Suécia. Fecha parêntesis.

Olof Palme, primeiro-ministro sueco nas décadas de 70 e 80, cumprimenta crianças.

Olof Palme, primeiro-ministro sueco nas décadas de 70 e 80, cumprimenta crianças.

O primeiro ministro Olof Palme morava em um bairro comum, no subúrbio. No verão ia de bicicleta ao trabalho. Qualquer pessoa podia vê-lo pedalando quando se dirigia ao parlamento.

Certa vez, fiquei muito surpresa quando o encontrei, no inverno, na rua, no meio de uma praça cheia de neve, perto da Estação Central… Estava com uma espécie de caneca fechada de lata, comum à época, com uma fenda, onde os passantes colocavam moedas. Ele fazia campanha de fundos em favor do Vietnã, contra a invasão estadunidense nesse país. Como admirei aquele homem!

Ele incomodava muita gente…

No dia 28 de fevereiro de 1986, foi assassinado quando saía, de noite, de um cinema.

Minhas homenagens ao guerreiro Olof Palme.”

Este relato encontra-se na pág. 639 do livro “68, a geração que queria mudar o mundo. Relatos.” organizado e editado por mim, Eliete Ferrer, e publicado pelo projeto Marcas da Memória da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: