A VERDADE É PLENA: AÉCIO NEVES É HERDEIRO DA ARENA

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8 de dezembro de 2014 por Lucas Rafael Chianello

“A cadela do fascismo está sempre no cio”.
Bertold Brecht.

Sabe-se lá porque tornou-se costumeiro que os debates televisivos de campanhas presidenciais começam na Rede Bandeirantes e terminam na Rede Globo. Às vésperas da realização do segundo turno das últimas eleições, assim declarou Aécio Neves da Cunha (guardem bem esse sobrenome, Cunha), candidato presidencial pelo PSDB, no debate da emissora da Família Marinho:

“Eu não posso deixar de lembrar que há 30 anos atrás, acompanhando meu avô Tancredo, eu fiz essa mesma caminhada pelo Brasil. Ele, infelizmente, não teve o privilégio de assumir a Presidência da República. Quero dizer, a você minha amiga, a você meu amigo, de todas as partes desse país: se eu merecer a sua confiança e o seu voto no próximo domingo esteja certo que subirei a rampa do Palácio do Planalto com a mesma coragem, com a mesma determinação, com o mesmo amor ao Brasil, com a mesma generosidade com que ele nos conduziu à democracia”.

Porém, seria mesmo Aécio Neves da Cunha herdeiro dessa serenidade democrática? Uma pequena porém maior exploração da árvore genealógica do principal presidenciável da oposição nas últimas eleições demonstra que alguns outros fatos precisam ser colocados às claras com a mesma intensidade do mito “neto de Tancredo Neves”.

Na madrugada do dia 31 de março para o dia 1º de abril de 1964 triunfou no Brasil, infelizmente, um golpe militar que deu início a mais de duas décadas de ditadura. Dentro de um contexto de Guerra-Fria, polarizada entre os capitalistas liderados pelos Estados Unidos e os socialistas liderados pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, o exército brasileiro depôs o Presidente Constitucional João Goulart, com ajuda dos EUA, o que, dentre outros, pode ser verificado no livro O Grande Irmão, de Carlos Fico, e no documentário O dia que durou 21 anos, dirigido por Camilo Tavares, de co-produção da TV Brasil e da Pequi Filmes.

Com o golpe militar, apenas dois partidos políticos passaram a operar “legalmente” no país a partir de 1965: A Arena (Aliança Renovadora Nacional), de situação, e o MDB (Movimento Democrático Brasileiro), carinhosamente conhecido como “Manda Brasa”, de oposição. Conforme gírias da época, a Arena era o partido do “Sim”, enquanto o MDB era o partido do “Sim, Senhor”.

Aécio Neves da Cunha, neto de Tancredo Neves, é também filho de Aécio Ferreira da Cunha, que durante o tempo em que a ditadura vigorou foi deputado federal pela Arena, o partido de sustentação do regime militar. Muitos desconfiam que anteriormente à ditadura Aécio Ferreira da Cunha tenha sido um dos beneficiados com dinheiro do IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática), uma organização de empresários brasileiros e estadunidenses destinada a financiar candidatos majoritários e proporcionais que se opunham às políticas de Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart. Razoável concluir que o termo democracia constava apenas do nome do instituto, haja vista que boa parte dos seus integrantes vieram a compor a Arena, o partido de sustentação da ditadura.

Após uma Comissão Parlamentar de Inquérito apurar os desdobramentos de seu funcionamento, o IBAD foi fechado por ordem judicial em 1963. Junto com ele a ADEP (Ação Democrática Popular), uma espécie de subsidiária.

Nepotismo aecista. Troca de favores. Na ditadura e na democracia

Após a consolidação da Arena como partido de sustentação do regime militar, Aécio Ferreira da Cunha, o pai, foi deputado federal pelo referido partido no período compreendido entre 1965 (fundação) e 1979 (dissolução), de modo que podemos dizer que foi durante a transição da Arena para o PDS (Partido Democrático Social) que começou a carreira política de Aécio Neves da Cunha, o filho, nomeado para trabalhar no gabinete do pai a partir de janeiro de 1980.

Documento oficial da Câmara dos Deputados não nos deixa mentir: Aécio foi assessor do pai, seu xará, ainda na época da ditadura militar.

Documento oficial da Câmara dos Deputados não nos deixa mentir: Aécio foi assessor do pai, seu xará, ainda na época da ditadura militar.

Após a rejeição da emenda Dante de Oliveira, Tancredo Neves, avô de Aécio, seria eleito Presidente do Brasil. Porém, via colégio eleitoral. O primeiro civil depois do golpe de 1964. Entretanto, morreu sem ter assumido o cargo no dia 15 de março de 1985 e em seu lugar tomou posse José Sarney.

Vinda a redemocratização e a realização de eleições regulares, Aécio, o filho, perdeu as eleições para a Prefeitura de Belo Horizonte em 1992. Ficou em terceiro lugar, atrás de Patrus Ananias (PT), o vencedor e Sérgio Ferrara (PMDB). 10 anos mais tarde, foi eleito governador de Minas Gerais pelo PSDB, oportunidade na qual seu pai foi nomeado membro do Conselho de Administração da Companhia Energética de Minas Gerais (CEMIG), empresa estatal mineira do setor de energia elétrica.

Vale o que está escrito.  Durante o governo de Aécio, o filho, Aécio, o pai,  foi nomeado para o Conselho de Administração da CEMIG.

Vale o que está escrito. Durante o governo de Aécio, o filho, Aécio, o pai, foi nomeado para o Conselho de Administração da CEMIG.

Esclarece-se que a Cemig é uma sociedade de economia mista, da qual o Estado de Minas Gerais, governado por Aécio de 2003 a 2010, é acionista.

Documento oficial extraído do site da Receita Federal comprova: a CEMIG é uma sociedade de economia mista. Logo, tem participação do Governo de Minas.

Documento oficial extraído do site da Receita Federal comprova: a CEMIG é uma sociedade de economia mista. Logo, tem participação do Governo de Minas.

Tristão, o avô desconhecido ou não divulgado, e a linha sucessória de uma oligarquia

Além de filho de Aécio Ferreira da Cunha, Aécio Neves da Cunha é neto de Tristão Ferreira da Cunha, que durante a ditadura foi nomeado membro do CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) pelo Marechal Humberto de Alencar Castello Branco, primeiro dos cinco ditadores que governaram o Brasil entre 1964 e 1985.

Nomeado em 1964, ano do golpe militar, Tristão esteve na Presidência do CADE até sua morte, em 2 de janeiro de 1974.

A vida política de Tristão Ferreira da Cunha iniciou-se em Minas Gerais, por onde foi deputado estadual e depois federal pelo PR (Partido Republicano), de ideologia conservadora. Tristão deixou a carreira parlamentar em 1962 para apoiar Aécio Ferreira da Cunha, que iniciaria a vida política pelo partido, passaria pela Arena, continuaria no PDS e por fim seria um dos fundadores do então PFL (Partido da Frente Liberal) em MG, que mais tarde se tornou o atual DEM (Democratas).

Coube a Aécio Neves da Cunha continuar a atuação política da família quando seu pai o nomeou membro do seu gabinete, ainda durante a ditadura militar, em 1980. Posteriormente, durante a transição da ditadura para a democracia (sem que nenhum torturador respondesse pelos seus crimes), Aécio foi nomeado diretor da Caixa Econômica Federal pelo substituto de seu avô, José Sarney, e por Francisco Neves Dornelles, seu primo, que dentre outras atuações políticas foi Ministro da Fazenda do Governo Sarney. Isso em 1985, enquanto que Fernando Collor só viria a ser o primeiro Presidente da República eleito de forma direta em 1989.

Mais um documento público comprova: onde tem o nome de Aécio, o nome de alguém da família também aparece.

Mais um documento público comprova: onde tem o nome de Aécio, o nome de alguém da família também aparece.

Um elogio nada suspeito

Durante a ditadura militar, na qual Aécio, o pai, foi deputado pela Arena e Tristão, o avô, foi Presidente do CADE até seu falecimento, Poços de Caldas, cidade turística do sul de MG tinha seus prefeitos nomeados por se tratar de estância hidromineral. Seu maiores expoentes políticos do triste período foram Sebastião Navarro Vieira, deputado estadual inicialmente pelo PRP (Partido de Representação Popular), onde se agrupavam boa parte de ex-membros da Ação Integralista Brasileira, partido político do movimento integralista que tinha por símbolo a letra grega sigma. Uma espécie de sessão nazi-fascista no Brasil. Foi pela AIB que um dos maiores expoentes do extremo conservadorismo brasileiro, Plínio Salgado, lançou-se candidato a Presidente em 1955, quando foi derrotado por Juscelino Kubitschek.

Com a dissolução do PRP e demais partidos pelo Ato Institucional nº 2, que criou o bipartidarismo entre Arena e MDB, Sebastião Navarro Vieira, a exemplo de muitos, abrigou-se no partido de sustentação do regime militar. E seu filho, Sebastião Navarro Vieira Filho, foi deputado federal pela Arena, pelo PDS e pelo PFL no período entre 1979 a 1987.

Nas eleições deste ano a filha de Sebastião Navarro Vieira Filho, Tereza Navarro, lançou-se candidata a deputada estadual pelo PR (Partido da República, não o mesmo PR de Tristão Ferreira da Cunha), e teve recomendação de Aécio.

Tereza Navarro, Aécio Neves da Cunha e ao fundo Sebastião Navarro, ex-deputado federal pela Arena. "Homem honrado".

Tereza Navarro, Aécio Neves da Cunha e ao fundo Sebastião Navarro, ex-deputado federal pela Arena. “Homem honrado”.

Ao dizer que Tereza, assim como ele, nasceu no meio político e é filha de homens públicos honrados, Aécio denuncia suas tradições: em relação a Tereza, discorre sobre um avô oriundo de uma sigla integralista que posteriormente se incorporou a Arena, enquanto o pai nasceu no seio da Arena para dar continuidade a sua carreira nos partidos que a sucederam. Enquanto isso, Aécio, além de neto de Tancredo, é também neto de Tristão Ferreira da Cunha, Presidente do CADE por 10 anos durante da ditadura e filho de Aécio Ferreira da Cunha, deputado federal pela Arena junto com Navarro Filho.

Prazer, Cid Gomes: Aécio Neves da Cunha

Segundo Paulo Moreira Leite num artigo publicado em seu blog durante essa semana, o atual Governador do Ceará, Cid Gomes, não estaria reconhecendo Aécio Neves da Cunha porque suas atitudes flertariam com o golpismo. Em especial, o suposto incentivo de inviabilizar a votação do PLN 36 no Congresso, que altera o superávit primário do Governo Dilma para o ano de 2014.

Porém, se Aécio foi ou não protagonista dessa tentativa de inviabilização, em sua página no facebook ele deixou um vídeo gravado de incentivo e convocação a manifestações que tem ocorrido na Avenida Paulista, desde o término das eleições, com concentração no vão do MASP (Museu de Arte de São Paulo), nas quais se pede o impeachment da Presidenta Dilma Rousseff e intervenção militar.

Uma vez derrotado nas eleições, Aécio Neves da Cunha não se conforma e assume uma postura quase idêntica a de Carlos Lacerda, expoente máximo da também conservadora UDN (União Democrática Nacional), em relação a Juscelino Kubitschek: se vencer eleições, não toma posse. Se toma posse, não governa. Total desrespeito com a democracia e com a soberania das urnas, que lhe negaram a Presidência da República. Inclusive em Minas Gerais, Estado pelo qual sua família se projetou politicamente e ele foi derrotado nos dois turnos.

Já dizia a sabedoria popular que o tempo é o senhor da razão. Depois de uma boa parte de sua vida pública em que invocou a herança política de Tancredo Neves, Aécio Neves da Cunha (guardaram bem esse sobrenome?) agora invoca a outra parte de sua biografia que lhe diz respeito: o nascimento e aprendizado político no seio de familiares, aliados e instituições que sustentaram o mais triste episódio de exceção da história do Brasil: a ditadura militar.

No próximo dia 10 de dezembro a Comissão Nacional da Verdade apresentará ao público o relatório de suas investigações sobre a violação de direitos humanos, civis e políticos durante o período da ditadura. Que se revele também os nomes de todos os cúmplices deste período, para que definitivamente ocupem seu lugar de direito na história: a ala daqueles que atentaram contra a dignidade política, moral e física do corpo brasileiro, num momento em que Aécio Neves da Cunha invoca essas lamentáveis tradições para flertar cada vez mais com o golpismo arenista. O mesmo Aécio Neves da Cunha que durante as eleições acusava a Presidenta Dilma de protagonismo estatal e criminalização das parcerias do Estado com a iniciativa privada, mas teve, ao longo de sua vida, o Estado como grande aliado de sua projeção.


ESCLARECIMENTO: este texto não discorre sobre afetividade, carinho, afeto, reverência e devoção familiar em âmbito privado, mas tão apenas da influência e tradições familiares de pessoas públicas em assuntos de ordem pública.


Para saber mais sobre as tradições políticas de Aécio Neves da Cunha:

A MERITOCRACIA DO GAROTÃO DE PRAIA AÉCIO NEVES

PCO: APOIADOR DA DITADURA, PAI DE AÉCIO RECEBEU DINHEIRO DA CIA

OLIGARCA EM DOSE DUPLA: PAI DE AÉCIO NA LISTA DOS FINANCIADOS PELA CIA NO PRÉ-GOLPE DE 1964

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Um pensamento sobre “A VERDADE É PLENA: AÉCIO NEVES É HERDEIRO DA ARENA

  1. Eliza disse:

    Excelente!

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