DILMA JÁ É VÍTIMA DE FOGO AMIGO NAS REDES SOCIAIS

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23 de novembro de 2014 por Lucas Rafael Chianello

Acabou a trégua. Passado o medo de uma possível vitória de Aécio Neves da Cunha, o neto de Tancredo Neves que politicamente não cita que é filho e xará do Aécio Cunha da Arena (Aliança Renovadora Nacional), Dilma passará a enfrentar novamente o fogo amigo nas redes sociais durante o seu segundo mandato, assim como no primeiro.

Detalhe para não passar despercebido: Aécio Cunha era deputado federal pena Arena quando nomeou seu filho Aécio Neves para ser membro de seu gabinete. Nepotismo aecista em plena ditadura.

Enfim, prossigamos.

Não se trata, claro, de adotar uma posta acrítica e dizer amém ao governo, até porque quando da sua fundação o PT criticou a experiência soviética justamente no sentido de se estabelecer a autonomia entre partido e governo. Todavia, é preciso ser inteligente o suficiente para não fazer com que críticas feitas publicamente sejam aproveitadas pela direita, bem como é preciso checar a precisão das informações e do que realmente se tratam os assuntos. Expor as questões com conhecimento de causa.

No caso da licitação de exploração do Campo de Libra, por exemplo, não bastou o pronunciamento de Dilma Rousseff em rede nacional. O que deveria ser motivo de comemoração do enterro do regime de concessão do petróleo de FHC se tornou uma improdutiva batalha pseudo-ideológica dentre a própria esquerda simplesmente porque muitos não compreenderam do que se tratava o regime de partilha de exploração do petróleo do pré-sal. Regime esse pelo qual a Venezuela explora o petróleo da Faixa do Orinoco. Ou Chávez também era um entreguista?

Outro caso no qual colocaram Dilma e o governo no canto do ringue foi em relação à avaliação sobre a tática black blocs.

Pontuemos.

Primeiro, questionou-se corretamente o caráter repressor das Polícias Militares sobre os protestos liderados pelo MPL (Movimento Passe Livre) contra o aumento da passagem do ônibus e do metrô em São Paulo. Diante da generalização da pauta, que culminou nas tais jornadas de junho, entraram em cena os black blocs com sua tática da violência pela violência, enquanto não se tinha uma resposta de qual era a pauta da violência generalizada. Senha para responsabilizar o governo federal por repressão policial quando na verdade o policiamento ostensivo, segundo a Constituição, é responsabilidade dos governos estaduais. Enquanto isso, a direita tentava fazer as pessoas crer que o governo era conivente com a baderna para seu plano de instalação de ditadura bolivariana.

Corretos de um ponto de vista de esquerda estão aqueles que vão na raiz do problema e discutem a desmilitarização das polícias, cujo modelo e estrutura atual de corporação é o mesmo da época da ditadura militar.

Kátia Abreu, expoente da bancada ruralista, pivô de inconformismo nas redes sociais.

Kátia Abreu, expoente da bancada ruralista, pivô de inconformismo nas redes sociais.

Enfim, passadas as jornas de junho, a licitação do Campo de Libra e as eleições, Dilma Rousseff e o governo agora sofrem com o fogo amigo diante da especulação sobre os nomes da reforma ministerial ainda não anunciada. Em especial quando se toca no nome da Senadora Kátia Abreu (PMDB-TO) como possível Ministra da Agricultura.

Não se trata de avalizar o nome da possível Ministra, uma vez que seu histórico político não se coaduna com um projeto de emancipação das camadas mais pobres da sociedade, inclusive as que residem no campo. Porém, não se trata também de avalizar uma crítica à esquerda que termina por beneficiar a direita.

Marx escreveu no 18 Brumário de Luis Bonaparte: “Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem como querem, não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado.” Tal frase aplica-se perfeitamente no que é vivido em relação à reforma ministerial de Dilma Rousseff. Ainda que Kátia Abreu represente os mais sórdidos interesses da bancada ruralista, é preciso maioria congressual para se aprovar os projetos do governo. A Constituição, ao afirmar os princípios do pluralismo político, consequentemente consagrou o presidencialismo de coalização, no qual o candidato vencedor precisa ceder às mais diversas tendências políticas presentes no Congresso para se ter maioria.

Qualquer analfabeto político descrito por Bertold Brecht sabe que apoio congressual se troca por nomeação ministerial. Kátia Abreu e seus mais sórdidos interesses ruralistas encontram-se alocados na legenda com a segunda maior bancada da Câmara dos Deputados. Formar maioria congressual é um problema que demanda uma solução. Se não for com o PMDB, partido do Vice-Presidente da República Michel Temer, será com quem? Apresentada a solução, aí realmente é desnecessário falar-se em Kátia Abreu.

Há 12 anos a esquerda brasileira enfrenta ou deveria enfrentar o desafio de construir uma bancada que permita ao governo uma maioria congressual que o dispense da agenda de concessões políticas, como por exemplo a possível nomeação da própria Kátia Abreu. Nessas eleições, a bancada de deputados federais do PT diminuiu de 88 para 70 deputados. Até que se faça a tão sonhada reforma política, o que foi feito para e pelo PT e demais partidos de esquerda aumentarem seu número de deputados e senadores?

Enquanto isso não muda, a realidade do presidencialismo de coalização é a que se impõe. Primeiramente, antes de discutir o mérito da nomeação de Kátia Abreu, é importante recordar que o Ministério para o que se especula o nome dela é o da Agricultura, enquanto que a reforma agrária e agricultura familiar (responsável por 70% dos alimentos que chegam às nossas mesas) são pautas do Ministério do Desenvolvimento Agrário. Entenderam agora porque o filho do Aécio Cunha da Arena dizia na campanha que iria cortar ministérios pela metade? Com ele os produtores rurais teriam ministério. Já os trabalhadores do campo…

Repete-se: não se trata de uma aprovação política automática ao nome de Kátia Abreu, dado o que ela representa. Porém, se a realidade discorrida neste texto não for compreendida, Dilma sofrerá mais desgaste com o fogo amigo do que com a oposição de direita, de modo que não adiantará questionar depois porque candidatos da direita lideram pesquisas de intenção de voto.

Se há críticas ao governo, que se façam nos espaços destinados para tanto, sem que a direita possa tirar proveito disso. Crítica em público não é crítica, é fogo amigo. Ainda mais em redes sociais.

Todo cuidado político é pouco. Todo cálculo de movimentação deve ser feito minuciosamente. Algumas críticas e posturas de “oposição à esquerda” terminam por beneficiar aqueles que se dizem os herdeiros políticos de Tancredo Neves quando na verdade suas iniciações políticas se deram no seio da Arena.

Atualização (Domingo, 23/11/2014, 16h10min)

Se no Senado Kátia Abreu estará livre para manobrar as chantagens do PMDB, no Ministério da Agricultura ela estará diretamente vinculada a Dilma Rousseff. Não custa recordar que Ministros respondem a e pela Presidência da República. De quebra, o suplente de Kátia Abreu é Donizeti Nogueira, do PT. Com ela no Ministério da Agricultura o PT teria uma cadeira a mais no Senado, enquanto a bancada ruralista perderia um dos seus expoentes justamente onde as matérias do seu interesse devem passar.

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Um pensamento sobre “DILMA JÁ É VÍTIMA DE FOGO AMIGO NAS REDES SOCIAIS

  1. Priscila disse:

    Muito bom o texto e como ele foi articulado!!! Revelador do cenário político brasileiro… e ousaria esperançoso?

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