O PRECONCEITO RACIAL NO BRASIL

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18 de novembro de 2014 por Lucas Rafael Chianello

Por Ricardo Senegal, cidadão ativista da igualdade racial.

O preconceito racial no Brasil é um assunto demasiado complexo e por vezes beira o tabu. Não é tarefa fácil discutir um assunto tão delicado como este, mas para mim e tantos outros negros que vivenciam as mazelas do preconceito racial literalmente, sentimos na pele, pois temos conhecimento de causa, tarefa difícil, porém necessária de ser discutida.

Todos nós negros e brancos conhecemos aquela velha história de uma princesa branca bondosa que libertou os escravos e todos viveram felizes para sempre. Mas esqueceram de contar que o Brasil foi um dos últimos países (por livre e espontânea pressão dos ingleses) a libertar os seus escravos, e logo após foram deixados à margem da sociedade sem nenhuma estrutura.

Na realidade nós negros, descendentes de seres humanos que foram escravizados, ainda hoje passados 125 dessa tal abolição, sentimos os açoites de um preconceito hipócrita e velado que nos joga a cada dia mais à margem da sociedade. Levamos ainda as chibatadas, feitas através de anedotas de péssimo gosto, politicamente incorretas. Chibatadas da falta de oportunidades em todos os setores da sociedade, na arbitrariedade de uma polícia suja, nojenta e racista. Somos açoitados nos olhares desconfiados que julgam previamente nossa índole e caráter, somos açoitados pela ausência dos nossos nos patamares mais elevados de nossa sociedade, sentimos o açoite nas palavras de tantos Feliciano, Malafaias E Danilo Gentili que existem por aí. Sentimos as incoerências nas palavras de um bobo da corte, capitão do mato contemporâneo como o “humorista” Marcelo Marrom.  Somos açoitados por aqueles que nasceram em berço esplêndido e que acham que não somos dignos de um sistema de cotas que veio “sanar” parte de uma desigualdade racial centenária. Recebemos o açoite daqueles que acham que não merecemos um feriado para homenagear nosso único herói nacional. Somos açoitados por fundamentalistas religiosos mercenários, engravatados hipócritas, que querem impedir o direito a nossa liberdade religiosa tentando embutir o estigma de religião demoníaca.

Infelizmente (sem generalizar) o povo negro não se reconhece, não se estreita, não é coeso em favor da causa, por que lhes foi ensinado desde a mas tenra idade que suas raízes são ruins. O mito da democracia racial fez com que o negro ficasse alienado, estático, atônito, evitando falar sobre o assunto, fingindo que o problema não é com ele. O negro se esquece do seu passado, que foi o seu povo que ergueu e estruturou esse país através de sangue e suor de um árduo trabalho. Hoje o que recebemos como herança é um racismo hipócrita, velado, sujo e covarde.

Não estou generalizando. Existem negros, assim como eu, que sentem orgulho de suas raízes, de nossos antepassados que veem beleza em nossa etnia, no batuque de nossos atabaques, no nosso sincretismo, na vasta gama de elementos culturais trazidos por nós para o deleite de nossa e de outras etnias. Nossa beleza esta fragmentada na sensualidade embutida em nossa cútis, na simplicidade a nós imposta e muito bem aproveitada.

Ao contrário do que muitos pensam nosso caráter não esta estruturado, nosso caráter é estruturado em nossos corações.

Sabemos que estamos a anos luz de conseguir igualdade nesses país hipócrita e genuinamente racista. Talvez seja necessário mais 125, 250 quem sabe 375 anos para que a sociedade brasileira evolua e para que a verdadeira abolição possa acontecer.

Enquanto isso temos que fortalecer nossos quilombos internos, sociais, virtuais. Temos que ser na atitude Zumbi dos Palmares, Nelson Mandela, Malcolm X, Martin Luther King e tantos outros que lutaram e lutam por uma sociedade mais justa e igualitária.

Parece utopia, mas assim como o Dr. Martin Luther King, eu tenho um sonho.

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