9 DE NOVEMBRO DE 1989, O DIA EM QUE O MURO DE BERLIM NÃO CAIU

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9 de novembro de 2014 por Lucas Rafael Chianello

Brasil, eleições 2006. Após vencerem o primeiro turno, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Geraldo Alckmin (PSDB) disputam o segundo turno, no qual Lula confirmaria a sua reeleição.

No primeiro debate promovido pela TV Bandeirantes no segundo turno, Lula diz a Alckmin que não se podia mais pensar em relações internacionais como nos tempos da Guerra Fria. Discutia-se como o Brasil deveria se posicionar frente a nacionalização do gás na Bolívia por Evo Morales.

Brasil, junho de 2013. Diversas manifestações mexem com o país após a forte repressão policial sobre manifestantes que protestavam contra o aumento da passagem do ônibus e do metrô em São Paulo. Diante das reivindicações, a Presidenta Dilma Rousseff lança o programa Mais Médicos, para o qual foram contratados milhares de médicos cubanos. Aécio Neves, Senador (PSDB/MG), futuro candidato por sua sigla partidária, diz que não era contra o programa, mas sim contra o financiamento de ditaduras.

Meses depois, Marina Silva diz que seu objetivo era acabar com o chavismo do PT.

Na semana passada, após Aécio perder as eleições presidenciais, um grupo de entre 1000 e 2000 manifestantes liderados pelo músico Lobão, na Avenida Paulista em São Paulo, pede por intervenção militar no Brasil porque com a reeleição de Dilma o país estaria inevitavelmente no caminho de uma cubanização ou de um bolivarianismo.

Sintomas de desidratação devida à falta d´água em São Paulo? Não. Ontem, em Porto Alegre, manifestantes pediam o fim do comunismo e a derrubada do memorial sobre o líder comunista brasileiro Luiz Carlos Prestes, em Porto Alegre (RS).

A clássica divisão política entre esquerda e direita nasceu na eclosão da Revolução Francesa, quando os parlamentares favoráveis à manutenção do regime absolutista posicionavam-se nos assentos à direita da Assembleia Nacional, enquanto os defensores de um novo regime posicionavam-se à esquerda.

No século XX, após o fim da 2ª Guerra Mundial, consolidou-se o entendimento de que a direita era composta pelos países e ideologias do bloco capitalista liderados pelos Estados Unidos, enquanto que a esquerda seria composta pelos países e ideologias do bloco socialista liderado pela União da Repúblicas Socialistas Soviéticas.

O fim de grande parte dessas experiências socialistas se deu no dia 9 de Novembro de 1989, há 25 anos, com a queda do Muro de Berlim, que separava não somente a Alemanha, mas a Europa num todo. No lado oeste, o capitalismo. No lado leste, o socialismo.

A vitória capitalista da chamada Guerra Fria levou a uma homogenização do neoliberalismo na década de 1990, basicamente representada pela drástica redução de direitos sociais e privatizações de serviços e empresas estatais, que na atual segunda década do século XXI é representada por ajustes fiscais chamados de pacotes de austeridade, que tem na Grécia o seu principal exemplo.

Com a imposição do neoliberalismo, o pensador positivista estadunidense de ascendência japonesa Francis Fukuyama aprimorou a tese filosófica do fim da história, representada principalmente pela não mais existência de contradições entre esquerda e direita, ideia essa adotada por muitos partidários do Estado mínimo que sequer se denominam direitistas, apesar de o serem.

No entanto, ainda que desprezem a história ao dizer que ela acabou e que o socialismo é coisa do passado, verifica-se por parte da direita um discurso feito nos moldes da mesma Guerra Fria de 25 anos atrás.

Algo não levado em conta pela direita (que nunca se assume como tal) é o descaso social do neoliberalismo e dos pacotes de austeridade. Qualquer contraposição a esse discurso é rebatido pela ideia de que o contrário é o socialismo, que teria fracassado. Rebote este tanto de palpiteiros de mesa de bar como de colunistas da grande imprensa oligopolizada.

Aliás, quando se fala em regulamentação do mercado da mídia no Brasil, por exemplo, diversos são os colunistas e comentaristas que em obediência a seus patrões, os barões da mídia, dizem se tratar de uma medida comunista, stalinista, chavista, etc. No entanto, recentemente, o mexicano magnata das comunicações Carlos Slim teve de vender parte de seu grupo para se adaptar às novas leis mexicanas sobre comunicação. Por sua vez, nas palavras de Eduardo Guimarães, editor-chefe do Blog da Cidadania, a Globo seria ilegal no mais marxista dos países, os EUA. A Inglaterra também passou por uma recente alteração em seu ordenamento jurídico no que se refere às comunicações. Por fim, enquanto no Brasil, que fez um, os direitos de transmissão dos clubes de futebol é objeto de monopólio da Globo, na Alemanha, que fez sete, o futebol é transmitido na TV pública. Atreva-se a querer ver o campeonato brasileiro transmitido na TV Brasil é te chamarão de stalinista, castrista, maoísta ou bolivariano.

Logo após as eleições vencidas por Dilma Rousseff há duas semanas, boa parte dos deputados federais de oposição derrubaram o decreto presidencial que regulamentava a Política Nacional de Participação Social, ou seja, como se daria a participação política de conselhos temáticos (saúde, educação, segurança, alimentação, etc) sobre as ações governamentais, cuja função, como o próprio nome diz, seria aconselhar. E qual a principal justificativa política do autor do projeto de lei que susta o decreto, deputado federal Mendonça Filho (DEM/PE), aos meios de comunicação? De que se tratava de um decreto bolivariano.

Por fim, exceto em relação a crise econômica vivida pela Argentina na corrida eleitoral de 2002, quando diziam que com Lula seríamos o próximo alvo da crise, comparações com a Venezuela e Cuba nunca faltaram, seguidas de predicados como comunista, socialista, esquerdista, populista e outros introduzidos de forma pejorativa. A cada pleito eleitoral vencido pelo PT, tínhamos de ter votado na direita porque o Brasil corria o sério risco do comunismo e da cubanização. Passados 12 anos da primeira eleição de Lula, até agora nada.

Enfim, seria cômico se não fosse trágico. É caso para psicólogos e psiquiatras além de historiadores. Dizem que o socialismo fracassou e que nunca dará certo, mas continuam com medo dele. A linha de argumentação (se é que podemos chamar isso de argumento) continua a mesma da época da Guerra Fria: satanizar todo e qualquer discurso que se refira ao protagonismo da esfera pública na política.

No dia 9 de novembro de 1989 apenas deixou de existir uma demarcação que separava um país e um continente geográfica e politicamente. O Muro de Berlim ainda existe no imaginário de muitos que ainda sequer deram conta disso quando proliferam os mais tristes festivais de besteirol político ao defenderem o mercado e a iniciativa privada a qualquer custo. Infelizmente, nada indica que sequer a curto prazo essa realidade irá mudar.

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