CHIANÉLLICO COPEIRO – GOLEADA? NÃO, FOI POUCO.

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9 de julho de 2014 por Lucas Rafael Chianello

Quem sabe finalmente se aprenda a lição da obscura final da Copa de 1998. Ainda é de desconhecimento de muitos que o relatório da CPI do Futebol/Nike revelou que alguns jogadores entraram (ainda entram?) em campo não porque o técnico escalou, mas porque há contrato com o fornecedor de material esportivo para que assim aconteça.

Presente numa das edições do programa Espaço Público da TV Brasil, o atual Ministro dos Esportes Aldo Rebelo, relator da CPI do Futebol, respondeu a uma pergunta do editor-chefe deste Blog Chianéllico sobre um livro por ele publicado no qual se tinha o tal relatório congressista. Livro recolhido, ordem do Judiciário para que se retirasse o relatório dos anais do Congresso e verdade ocultada.

1987. Flamengo e Sport vencem seus módulos da Copa União, o equivalente ao Campeonato Brasileiro daquele ano. O clube da Gávea se recusa a jogar contra o clube da Ilha do Retiro, que foi declarado campeão por uma decisão da Justiça Federal.

Detalhe: o título do Sport é por muitos considerado de segunda divisão depois de vencer o Guarani, que no ano anterior tinha sido vice campeão ao perder para o São Paulo numa disputa de pênaltis no estádio do Brinco de Ouro da Princesa, ou seja: terminou em segundo e foi rebaixado…

Mais de duas décadas depois o Flamengo reivindica o título. Com o pentacampeonato do mesmo São Paulo em 2007, a Caixa Econômica Federal entrega para o tricolor do Morumbi a Taça das Bolinhas, um troféu destinado ao clube que primeiramente conquistasse cinco campeonatos brasileiros.

Em dezembro de 2010 a CBF unifica os títulos brasileiros da Taça Brasil, do Torneio Roberto Gomes Pedrosa e o módulo da Copa União de 1987 vencido pelo Flamengo, que nesse caso voltaria a ser o primeiro pentacampeão brasileiro. O clube reivindica a Taça das Bolinhas de modo que se reconheça a divisão do título com o Sport e até que a briga se resolva, o São Paulo a devolve a taça à Caixa Econômica Federal.

Uma briga sobre um campeonato disputado há quase 30 anos começa a arrastar-se na Justiça Comum e em abril deste ano o Superior Tribunal de Justiça mantém o Sport como único campeão brasileiro de 1987. Resta ao Flamengo um último recurso no Supremo Tribunal Federal que, se foi ajuizado, ainda não foi julgado.

1996. O Fluminense faz sofrível campanha no Campeonato Brasileiro e é rebaixado. Entretanto, suspeitam de adulteração de resultados decorrentes de telefonemas de dirigentes do Corinthians e do Atlético Paranaense. Anula-se o rebaixamento e infla-se a edição do ano seguinte. De nada adiantou. O Fluminense cai novamente e vai parar na terceira divisão.

1999. Botafogo e Internacional ganharam os pontos de jogos disputados contra o São Paulo, que teria escalado irregularmente o atacante Sandro Hiroshi. O Gama de Brasília, rebaixado após os julgamentos da Justiça Desportiva, consegue na Justiça Comum o direito de disputar a primeira divisão do Campeonato Brasileiro. O Clube dos 13 organiza a Copa João Havelange, equivalente ao Campeonato Brasileiro de 2000, e Fluminense e Bahia são içados para a primeira divisão.

2005. Descobre-se a adulteração de resultados de uma máfia de apostas que envolvia o árbitro Edílson Pereira de Carvalho. O Corinthians, que firmou uma parceria com um fundo de investimentos investigado pela Polícia Federal, torna-se o campeão depois de jogar novamente com os rivais Santos e São Paulo. Havia perdido para os dois. Na “revisão”, respectivamente ganhou de 3×2 e empatou por 1×1.

2013. Quando finalmente se acredita que o Fluminense pagaria a Série B, o Procurador do Superior Tribunal de Justiça Desportiva denuncia um relacionamento irregular dos atletas Héverton, da Portuguesa e André Santos, do Flamengo, na última rodada do campeonato. Por unanimidade, o STJD condena Lusa e Flamengo à perda de quatro pontos na tabela de classificação, tanto em primeira instância quanto no pleno. O Fluminense atua no caso, com advogado, como terceiro interessado.

Diversos boatos surgem no sentido de que o erro da Portuguesa foi proposital em razão de suborno. Porém, iniciada as Séries A e B de 2014, até agora não se teve nenhuma prova de que o suborno ocorreu. Enquanto isso, a Portuguesa disputa a Série B e o Fluminense, rebaixado no ano anterior, termina entre os quatro primeiros na pausa para a Copa.

Nunca o nível de disputa dos campeonatos nacionais foi tão baixo desde o início da era dos pontos corridos, com os campeonatos estaduais convertidos numa espécie de pré-temporada com ingresso pago. Calendário cada vez mais longos exigem maior receita financeira para que os clubes tenham elenco e não apenas um time de 11 bons jogadores. Os clubes estão quebrados, sobrevivem das cotas de TV e dois deles, Flamengo e Corinthians, recebem mais verbas de direito de transmissão do que os demais. Nem nos EUA, o país mais capitalista do mundo, é assim.

Balanços cada vez mais negativos e uma legislação que enfraquece clubes e favorece empresários faz com que o êxodo de jogadores (nosso maior PIB, como dizia João Saldanha) chegue ao seu ápice: muitos que jogam em grandes clubes da Europa sequer disputaram partidas aqui entre os profissionais. Diegos Costas alcançam o sucesso como desconhecidos de todos nós. Aprendem desde cedo a maneira estrangeira de se jogar, principalmente a europeia, e o modo brasileiro de se jogar é recordado, num sonoro 4×0, pelo Barcelona de Guardiola em cima do Santos na final do Mundial de Clubes de 2011.

A identificação do torcedor com a seleção é cada vez menor. Soma-se a isso uma nova geração espectadora e torcedora de clubes europeus. Enquanto isso, nossos técnicos cada vez mais obsoletos e desatualizados. Muricy, Tite, Mano Menezes e Felipão são os grandes representantes de uma geração de retranqueiros. No caso de Felipão, seu último feito antes de voltar à seleção foi abandonar o Palmeiras à beira do rebaixamento em 2012.

Jogadores fundaram recentemente um movimento chamado de Bom Senso Futebol Clube, que reivindica principalmente uma reorganização do calendário do futebol brasileiro, com vistas a um maior intervalo de descanso entre as partidas e promoção de campeonatos para os chamados clubes pequenos, que por jogarem somente de três a quatro meses por ano, acabam desempregando um imenso número de jogadores que ficam sem contrato devido à ausência de competições.

Tudo isso diante de um Ricardo Teixeira que depois de décadas como intocável na presidência da CBF não resiste a denúncias de corrupção e passa o bastão para José Maria Marin, ex-deputado estadual e governador de São Paulo durante o triste período da ditadura militar, acusado de participar do assassinato do jornalista Vladimir Herzog. O mesmo José Maria Marin que impediu a entrada de Cafu no vestiário após a derrota para a Alemanha. Deixa-se como está para se ver como ficará e segundo Parreira, pasmem! A CBF é o Brasil que deu certo.

Numa partida do Campeonato Paulista de 1998, o Palmeiras foi surpreendido em casa por uma goleada de 5×1 do interiorano Mogi Mirim. Ao final do jogo, o goleiro Velloso, antecessor do ídolo Marcos, declara que o resultado é uma série de erros que foram se somando e culminaram no elástico placar.

O mesmo aconteceu hoje (ontem) no Mineirão. A diferença é que enquanto os erros aos quais Velloso se referiu aconteceram em 90 minutos, a goleada sofrida para a Alemanha é resultado de décadas de mazelas, corrupção, falta de organização, mandos e desmandos do comando do futebol brasileiro.

A bem da verdade, 7×1, numa semi-final de Copa do Mundo, em casa, ficou barato.

Placar final, 7x1. No jogo em que Klose quebrou o recorde de maior artilheiro da história das Copas.

Placar final, 7×1. No jogo em que Klose quebrou o recorde de maior artilheiro da história das Copas.

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