CHIANÉLLICO COPEIRO – A ARGÉLIA CHEGOU

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8 de junho de 2014 por Lucas Rafael Chianello

Era por volta de 6h15min, horário de Brasília. Aeroporto de Viracopos, Campinas. O piloto da Air Algerie procedia o taxiamento de um Airbus 330-200 para que pudesse estacioná-lo. Jogadores e comissão técnica da Argélia pisariam em solo brasileiro, recepcionados pelo Presidente da Federação Argelina de Futebol, Mohamed Raouraoua, que também é membro do comitê da FIFA, segundo Rachid Belarbi, jornalista argelino presente no local, sobre quem iremos discorrer por aqui com muito prazer.

Os primeiros jogadores a descerem do avião foram Nabil Ghilas e Islam Slimani. Oportunidade de ouro para os jornalistas brasileiros, pois ambos jogam, respectivamente, no Porto e no Sporting, de Portugal. Logo, uma chance de uma entrevista em português. Conversamos com Slimani, que com dificuldades disse acreditar na classificação para as oitavas de final e espera que sua seleção seja a sensação africana da Copa. Recordou, ainda, de Madjer e Belloumi, ícones do futebol argelino.

Nabil Ghilas (esq., ao fundo) e Islam Slimani (dir.) atendem a imprensa após o desembarque.

Nabil Ghilas (esq., ao fundo) e Islam Slimani (dir.) atendem a imprensa após o desembarque.

Um dos episódios da série de documentários Rebeldes do Futebol conta a história de Rachid Meklhoufi e outros argelinos que jogavam em clubes franceses e desertaram de volta ao seu país de origem para criarem o combinado da Força de Libertação Nacional, que excursava por diversos países e promovia jogos para divulgar a causa da independência do país, ainda colônia francesa. Isso no final da década de 1950 e início da de 1960, enquanto o Brasil, por exemplo, é independente de Portugal desde 1822.

A Batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo, é um excelente retrato da luta armada dos argelinos por sua emancipação.

Após a independência, o primeiro Presidente argelino foi Ahmed Ben Bella, que também chegou a tentar carreira nos gramados. Porém, sem o brilhantismo de Mekhloufi, campeão de diversos torneios e campeonatos pelo Saint-Ettiene, um dos maiores clubes de futebol da França.

Depois de ser um dos líderes do combinado da Força de Libertação Nacional e marcar época no futebol francês, Mekhloufi foi o técnico da primeira participação da Argélia em Copas do Mundo em 1982, na Espanha. O time se classificaria novamente em 1986, no México, oportunidade na qual perdeu para o Brasil por 1×0. O tento brasileiro foi marcado por Careca.

24 anos se passaram e a Argélia voltou a participar de uma Copa do Mundo em 2010, na Alemanha. Neste intervalo, foi campeã da Copa Africana de Nações em 1990, quando sediou o torneio. Porém, nunca passou da primeira fase de grupos em Copas do Mundo.

No espaço reservado à imprensa na pista do Aeroporto de Viracopos, Belarbi nos informou que os argelinos torcerão com sentimento de cautela. As expectativas para uma grande exibição na última Copa, na África do Sul, terminaram com uma participação sem um gol sequer. Por isso os argelinos preferem acompanhar jogo a jogo desta vez e não criar muitas expectativas. “Temos de ser realistas”, diz Belarbi.

Após vencer seis dos oitos jogos disputados nas eliminatórias africanas, a Argélia vem para o Brasil com a missão de classificar-se pela primeira vez às oitavas de final e, quem sabe, ser a sensação africana da Copa. Para isso, Ghilas, Slimani, Bentaleb, Feghouli e companhia terão não somente que mostrar o seu melhor, mas também se superarem.

Esta breve reportagem é o primeiro texto da série Chianéllico Copeiro, na qual abordaremos a disputa do mundial de seleções disputado em nosso país. Meklhoufi e seus companheiros resistiram ao colonialismo francês dentro das quatro linhas. Seu combinado é o embrião de sua seleção nacional. Uma belíssima história de resistência que vai ao encontro dos princípios editoriais deste Blog Chianéllico: a construção de um mundo fraterno, solidário e igualitário. Do contrário, Mekhloufi e companhia não desertariam de seus clubes.

Sem prejuízo do merecimento e das críticas em relação aos demais selecionados, o Blog Chianéllico torcerá para Argélia na Copa do Mundo.

Para saber mais sobre o futebol argelino:

MEKHLOUFI, O FUTEBOLISTA QUE CRIOU A ARGÉLIA
PÁGINA DA SELEÇÃO DA ARGÉLIA NO SITE DA FIFA

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2 pensamentos sobre “CHIANÉLLICO COPEIRO – A ARGÉLIA CHEGOU

  1. A guerra anticolonial de do povo argelino foi referência a muitos outros movimentos de libertação em diversos pontos do globo.Heróica, dramática,deixou traumas a vencedores e vencidos quer pela crueldade dos opressores(franceses) ou pelas ações desesperadas dos oprimidos libertos.”A Batalha de Argel”, de Gilles Pontecorvo também é referência na cinematografia mundial pela forma e conteúdo.Pontecorvo utilizou-se do próprio povo argelino nas filmagens.Os atores, civis residentes na própria Casbah, foram protagonistas da guerra real e do filma.O processo revolucionário que precedeu a libertação emaranhou-se por caminhos transversos que obstaculizaram a construção do projeto de nação desejado pelo povo.

  2. Muito bom! Só falta um mapa com a localização da Argélia!

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