QUEM REALMENTE COLOCA O PAÍS EM PRIMEIRO LUGAR?

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25 de maio de 2014 por Lucas Rafael Chianello

Após uma grave contusão no joelho direito, Ronaldo foi aposentado pela mídia desportiva. Davam sua ausência na Copa de 2002 como certa. O Brasil foi penta e ele foi o artilheiro. Daí em diante Ronaldo se tornou uma espécie de Ayrton Senna dos gramados, um semi-deus do qual se é proibido não falar bem. A artilharia do penta e de todas as copas é a cortina de fumaça que lhe credencia como tal.

Ontem, fomos noticiados de que o ex-atleta Ronaldo, o Fenômeno, teceu severas críticas ao Brasil em relação ao atraso de obras de infra-estrutura e mobilidade urbana sobre a Copa. Isso dias depois dele aparecer numa imagem ao lado do presidenciável Aécio Neves, na qual assistiam a um jogo de futebol.

Apoio eleitoral declarado.

Apoio eleitoral declarado.

Vivemos numa democracia. O Ronaldo tem direito de apoiar quem ele quiser. Desde que não prejudiquemos ninguém, temos o direito de ser o que quisermos ser. Porém, o direito à crítica é de todos.

Já aposentado dos gramados, Ronaldo se tornou membro do COL, Comitê Organizador Local da Copa. Sempre esteve presente na mídia ao vistar estádios e participar de solenidades e entrevistas coletivas sobre a Copa. Porém, às vésperas do mundial e dias depois de aparecer ao lado de Aécio, resolveu externar suas “preocupações”. Disse que há obras atrasadas, que a imagem do país no exterior não é das melhores e que há preocupação de turistas com a segurança.

Primeiramente, mesmo que Ronaldo tenha eventualmente tido o cuidado de separar as coisas, há de se falar que ele é sim co-responsável pelo evento Copa do Mundo como um todo, afinal, ele é membro do COL. Os ônus e os bônus da Copa são dele também. Parece que agora que o mundial está prestes a ser realizado e não há mais o que se fazer, a não ser esperar o jogo de estreia, a missão se tornou criticar para se obter ganho político.

Quando se fala em governo, em regra se trata do governo federal. O desconhecimento das atribuições dos governos federal, estaduais e municipais faz crer, num primeiro momento, que a responsabilidade dos problemas do país são do Presidente da República. Dizer que há obras de mobilidade urbana atrasadas é fácil. Difícil é precisar a quem se atribui o atraso. A grande maioria das obras de mobilidade urbana em relação a Copa é de responsabilidade dos governos estaduais, algo não citado por Ronaldo em sua declaração.

O Brasil hoje é um ator político de fundamental importância no cenário internacional, um país que se respeita. Que tem seus problemas e suas virtudes como qualquer outro. Ao se referir ao Brasil como um incorrigível país fadado ao terceiro mundo, Ronaldo ignora a projeção positiva obtida pelo Brasil nos últimos anos sobre os mais variados âmbitos, quer ele queira, quer não. Um país próximo do pleno emprego enquanto os chamados de primeiro mundo, por onde ele jogou, enfrentam recessão e desemprego. É num país que está entre as oito maiores economias do mundo onde será realizada a Copa que Ronaldo ajudou a organizar.

Ah, a segurança no Brasil deixa a desejar? Assessorem o Ronaldo e mostrem-no de quem é a responsabilidade sobre as polícias militares. Mas independentemente de quem é a responsabilidade, a segurança preocupa? Seria interessante o Ronaldo dizer se além do COL ele já participou de um conselho civil sobre segurança pública, bem como o que ele pensa sobre a desmilitarização das polícias.

Em 1998, na final da Copa contra a França, foi noticiado que Ronaldo, o maior craque do Brasil na época, teria sofrido uma convulsão horas antes do jogo. Listas da escalação com Edmundo na titularidade chegaram a ser divulgadas. Mas quem entrou em campo visivelmente abatido foi o Ronaldo. O episódio, mal explicado, rendeu uma CPI no Congresso Nacional cujo relatório, ao se tornar livro, foi recolhido¹ das editoras e tirado dos anais do poder legislativo por decisão do Supremo Tribunal Federal.

Há quem se refira a uma interferência dos patrocinadores na escalação, o que inclusive teria motivado Ronaldo a jogar a Copa de 2006 acima do peso. Questionado, ele não gostou muito. Se há atrasos em obras no Brasil, das quais Ronaldo não precisa o responsável em específico, há 16 anos se espera do Fenômeno uma explicação convincente sobre o que ocorreu naquela final, detalhes além do inocente discurso de que Zidane e companhia foram melhores e mereceram vencer.

Enquanto Ronaldo não esclarece se os interesses dos patrocinadores estiveram acima dos interesses de se representar o país dentro das quatro linhas, ele, novo cabo eleitoral de Aécio, não tem qualquer autoridade para falar sobre um país onde ele mau viveu ao longo de sua vida. País esse que não temos a certeza de que ele representou de fato quando teve a oportunidade, no que pese seus feitos serem inquestionáveis do ponto de vista desportivo.

¹Observar o trecho da entrevista dos 16min30segs em diante.

Para saber mais sobre a repercussão das declarações de Ronaldo:

CARTA ABERTA A RONALDO: VOCÊ FOI COVARDE OU OPORTUNISTA?

A APOSTA DE RONALDO

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Um pensamento sobre “QUEM REALMENTE COLOCA O PAÍS EM PRIMEIRO LUGAR?

  1. Ferreira Hernandes disse:

    Ronaldo foi o que já demonstrou ser: uma incógnita. Na Copa da França, provocou a derrota da seleção brasileira num caso que ainda deverá ser esclarecido. Talvez a Comissão da Verdade possa apurar o que houve depois de investigar os torturadores militares. Também “naquele” episódio em que foi pego com três travestis, a história não está escrita direito. Um deles, exatamente aquele que falou que Ronaldo havia pedido para comprar tóxico, morreu.

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