REFLEXÃO SOBRE O MEDO

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19 de maio de 2014 por Lucas Rafael Chianello

“Esse negócio de João Sem Medo é relativo. O medo é relativo, o medo é a realidade das coisas. Todo homem tem medo, e isso eu creio que é normal”. Palavras de João Saldanha, técnico da seleção brasileira nas eliminatórias da Copa de 1970, conhecido como João Sem Medo em razão dos seus enfrentamentos contra o regime militar.

O medo, como em todos os âmbitos da vida, também está na política. Pelo menos para os ditos politizados. Na campanha presidencial de 2002, a atriz Regina Duarte, conhecida como namoradinha do Brasil, declarou seu apoio ao candidato do PSDB, José Serra, na propaganda eleitoral gratuita. Era uma das últimas cartadas na tentativa de impedir aquela que finalmente seria a eleição de Lula, que respondeu as palavras de Regina Duarte com o pedido de que a esperança vencesse o medo.

Mesmo assim, Heloisa Helena, antes de fundar o dissidente PSOL, disse à revista Veja que para ela o medo teria vencido a esperança.

Ah! Diga-se de passagem, qual foi um dos motivos da marcha da família com deus pela liberdade, principal ala de apoio civil ao golpe militar de 31 de março? O medo da “comunização” ou “cubanização” do Brasil. Enfim, nas mais diversas épocas o medo tem servido como justificativa para posturas políticas.

Durante esta semana o PT inseriu na TV propagandas partidárias nas quais fez uma espécie de comparação com o passado. Indivíduos e famílias fictícias viam a si mesmos há alguns anos. A ideia foi alertar o telespectador as consequências do que seria uma volta a um passado de descaso social caso o partido perdesse as eleições que se avizinham.

Veiculada a peça publicitária, diversas foram as críticas. Dentre elas, a de que o partido teria utilizado o mesmo expediente da Regina Duarte em 2002. Ora, se a namoradinha do Brasil sentia medo, se em 1964 a elite e a classe média sentiam medo, se a Heloisa Helena disse que o medo tinha vencido a esperança, se Collor em 1989 foi eleito com medo de que o Lula confiscasse os bens da população (e quem confiscou as cadernetas de poupança, mesmo?), por que o PT não pode sentir medo também? Ou o medo também era uma estatal que foi privatizada nos anos 90 e passou a ser apenas de alguns?

O ponto central da discussão está no programa político. Basicamente, o posicionamento político de alguém se dá quanto a sua posição em relação ao papel do Estado. Enquanto se tem o governo de um partido interventor, preocupado há três mandatos presidenciais com a prioridade das questões sociais, se tem uma oposição que ficou na presidência durante dois mandatos e defende menor intervenção do Estado na ordem econômica e social.

Não só o PT mas a esquerda em geral faz uma leitura de que a não intervenção do Estado na ordem econômica e social gera exclusão social, fome, ausência de moradia e analfabetismo, por exemplo. Em 2012 foi noticiado que o Brasil atingiu seu menor nível de desigualdade social desde 1960. O temor do PT em sua propaganda política justifica-se a partir do seu ponto de vista.

Quem deu o prato cheio para que o PT veiculasse suas propagandas da forma que veiculou foi, também, o próprio Aécio Neves, quando disse recentemente que enfrentaria as consequências de tomar medidas impopulares, enquanto que seu possível Ministro da Fazenda, Armínio Fraga, disse que contas tem de ser feitas sobre o salário mínimo, que estaria alto e não guardaria relação com a produtividade.

Os que defendem o papel do Estado como indutor de políticas sociais em prol dos menos favorecidos tem, sim, medo do que aconteceria com uma vitória dos representantes de menor intervenção do Estado. Sabem que isso significa mais crianças vendendo balas e fazendo malabarismo em semáforos, mulheres jovens e adolescentes e mães de família se prostituindo em troca de um quilo de arroz, crianças deixando de estudar para trabalhar e ajudar na renda familiar, filas para se obter um emprego, etc.

Este artigo, em verdade, é tão apenas uma exploração sobre um assunto que teve suas polêmicas ao longo da semana. Na verdade, a frase do leitor Reinaldo del Dotore resume tudo: “O PSDB propagava “medo” de um futuro que fantasiava. O PT repercute o medo de um passado que conhecemos.”

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Um pensamento sobre “REFLEXÃO SOBRE O MEDO

  1. marcelo carneiro disse:

    Muito bom!Parabens!

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