DA ESCOLA BASE A RACHEL SHEHERAZADE: NÃO APRENDERAM

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11 de maio de 2014 por Lucas Rafael Chianello

Há uma frase que soa como profecia sobre a formação de opinião pelos programas policiais (sem exclusão dos demais editoriais e da mídia como um todo): “Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma”. A frase é do jornalista húngaro radicado nos Estados Unidos, Joseph Pulitzer, nascido em 1847 e morto em 1911.

Sob o signo do combate ao crime, diariamente somos bombardeados com diversas notícias de editoriais policiais. É o pai de família alcoólatra que estuprou a própria filha, é o traficante que executou membro de quadrilha rival pelo controle do tráfico, é o escândalo do desvio de verba por determinado político, etc. O que impressiona nisso tudo? Em questão de horas, minutos, a mídia já tem a solução para os crimes, dos de menor potencial ofensivo aos mais bárbaros. Não há necessidade de investigação, inquérito e julgamento. Deu na mídia, condena-se. Mas e se o condenado diante das câmeras for, na verdade, inocente? Sim, é algo que pode acontecer.

Voltemos no tempo. Abril de 1994. Um aluno de uma escola infantil no bairro da Aclimação em São Paulo reclama de incômodos no ânus. A mãe entende que o filho foi abusado sexualmente. Há um furo da Rede Globo, que denuncia midiaticamente conforme as alegações da mãe. Inicia-se então, por parte de outros periódicos, uma campanha de difamação sobre os supostos molestadores. Resultado, em resumo: Ucushiro Ishimada, um dos sócios da Escola Base, morreu no último dia 16 de abril marginalizado por um escândalo midiático sobre o qual não se provou sua culpa.

Depois de uma intensa série de linchamento midiático, no qual o delegado responsável pelo caso aproveitou para ter seus minutos de fama, o caso foi arquivado por insuficiência de provas. Exames do Instituto Médico Legal apontaram que a dilatação do ânus do aluno supostamente molestado não configurava abuso sexual. Tanto a Globo como o SBT foram condenados a indenizar os sócios da escola em processos que demoraram cerca de quase duas décadas para terminarem.

Não se dispensou aos inocentes da Escola Base um por cento sequer do destaque dado quando midiaticamente acusados, pouco menos lhes foi oferecido a oportunidade para contarem suas versões da história. Uma vez inocentes, as versões deles são verdadeiras. Donos da informação, os grandes meios de comunicação jamais vieram a público pedir desculpas, pouco menos intensificaram a cobertura e seus respectivos comentários acerca das condenações judiciais que sofreram.

Conforme o título deste artigo, os grupos de comunicação não aprenderam, não querem aprender e ninguém está a fim de fazê-los aprender. No caso, principalmente o Judiciário. Continuamos a verificar diariamente o linchamento midiático antes de realmente não se ter mais recurso judicial cabível às condenações. A mesma lerdeza judiciária criticada pelos âncoras policiais é a mesma que permite seus patrões indenizarem inocentes 20 anos depois a preço de banana. Ou você, leitora e leitor, pensam que uma indenização de R$ 1,35 milhão desfalcará os cofres da Globo? É capaz de pagarem com sorriso no rosto.

Após toda a sorte de vexame sofridos, mesmo indenizados os sócios da Escola Base foram simplesmente esquecidos. O destaque dado às suas supostas culpas não foi o mesmo dispensado às suas inocências.

O panorama continua o mesmo. Recentemente, Rachel Sheherazade, apresentadora e comentarista do telejornal SBT Brasil, ao comentar o acorrentamento de um rapaz nu junto a um poste no Rio de Janeiro, iniciou sua fala chamando-o de “marginalzinho” e disse serem entendíveis os atos de vingança privada das pessoas de bem, devido a inércia do poder público. Novamente, pré-julgamento. Qual a prova que se tem que o sujeito foi acorrentado a um poste por vingança de tentativa de delito? Segundo informações, se for verdade que os responsáveis pelo acorrentamento possuem ficha na polícia, nem sobre vingança privada de homens de bem poderemos falar. E aí, como fica? Rachel Sheherazade iria pedir desculpas? O SBT forneceria espaço para direito de resposta? Caso não fornecesse, imaginemos que o acorrentado ajuíze ações de direito de resposta e indenização por danos morais. Por quanto tempo tramitariam os processos? A indenização seria o suficiente para fazer o SBT e seus apresentadores pensarem antes de prejulgar alguém? Aliás, qual a formação e atribuição jurídica possuem os comentaristas de programas policiais e as próprias emissoras para emitirem juízos de uma abordagem que deveria ser estritamente jurídica?

Não basta dizer que basta mudar de canal para não se conviver com a difamação do pré-julgamento dos editoriais policiais. Alguém os assiste e muitos, sem conhecer o assunto, formam a opinião a partir do que é noticiado e comentado.

Pouco menos se trata de tentativa de censura. A liberdade há de ser uma via de mão dupla, tanto da imprensa emitir sua opinião como de emitirmos opiniões sobre a imprensa. Se ela critica, também possuímos liberdade de criticá-la.

A Constituição é clara quanto aos nossos direitos e garantias individuais a partir da redação do inciso LVII do artigo 5º:

Ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória.

20 anos se passaram desde o caso da Escola Base e os grandes grupos de comunicação continuam, diariamente, a emitir seus juízos sumários de condenação sem que quem competente para tanto o faça, o Poder Judiciário. Quando uma condenação sumária midiática é discutida na Justiça, as indenizações de valores risíveis demoram para serem pagas até que o processo termine. Infelizmente, tudo indica que nada foi aprendido. Continuam a valer a pena o furo e o comentário irresponsável sobre quem se presume inocente. Ou a mídia tem fé pública e ninguém nos avisou? Até onde se sabe, os grupos de comunicação não são tribunais.

Para saber mais sobre o caso da Escola Base e a presunção de culpa pela mídia:

CASO ESCOLA BASE: REDE GLOBO É CONDENADA A PAGAR R$ 1,35 MILHÃO

ESCOLA BASE: SBT É CONDENADO A PAGAR R$ 200 MIL A EX-DONOS

O CASO ESCOLA BASE, 20 ANOS DEPOIS

18 ANOS SEM REPARAÇÃO DOS CRIMES CONTRA A ESCOLA BASE

RACHEL SHEHERAZADE E O DISCURSO DO ÓDIO

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Um pensamento sobre “DA ESCOLA BASE A RACHEL SHEHERAZADE: NÃO APRENDERAM

  1. Robson disse:

    Eu, enquanto policial militar…nasci em 1985 e tudo que sei sobre ditadura militar li nos livros. Assim é também 95% dos meus companheiros de corporação, em sua maioria jovens que um dia prestaram um consurso público visando estabilidade e uma vida digna, se apaixonaram pela profissão de socorrer os mais fracos, fazer cumprir a lei e promover os direitos humanos… Assim, no dia a dia, o que separa a sociedade do caos, o que inibe a vuolencia desmedida e faz com que, mesmo cometendo um crime os autores fujam e se escondam, isto é a Polícia. Sem Polícia não adianta ter leis, juizes promotores… Nem prefeitos, governadores, leis de transito ou até mesmo( caso alguem nao saiba) vigilancia sanitaria e receita estadual e federal. Quem voces acham que garante o poder dos outros órgãos???

    Neste sentido, o que sinto na pele, é ter minha profissão e corporação demonizados diariamente por essa Midia irresponsável e descompromissada com o bem estar da nação… Somos também condenados primeiro pela Globo e outras em detrimento do traficante e do assaltante… Somos chamados de cachorros do governo, de resto de uma ditadura que nem vimos… Somos rotulados de burros e corruptos nas novelas da Globo ( vcs ja viram o estereotipo da policial da globo? sempre burrão, lambão e corrupto). Enfim, fica registrada minha revolta como um cidadão encarregado de servir aos demais cidadãos em basica necessidade, a segurança, com esta Mídia intocável, aparentemente…

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