DE ABRIL DE 2002 A ABRIL DE 2013 NA VENEZUELA

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14 de abril de 2014 por Lucas Rafael Chianello

Chávez passou a priorizar a população mais pobre do seu pais desde sua eleição, em 1998. Os dividendos de um país riquíssimo em petróleo passaram a ser aplicados em políticas populares, o que gerou descontentamento de setores da oligarquia venezuelana. Financiada pelos Estados Unidos, uma associação entre os principais canais de televisão privados, centrais sindicais patronais e alguns dos principais nomes da hierarquia militar tradicional venezuelana passou a promover uma desestabilização institucional com a finalidade de derrubar o Presidente. Era levada a cabo o que se chama de forma clássica de golpe de Estado.

O descontentamento elitista se acirrou quando Chávez nomeou um novo diretor para a PDVSA, empresa estatal do ramo petrolífero. Esta nomeação, acompanhada do discurso de distribuição de riqueza e renda, enfureceu as oligarquias tradicionais, que não mediram esforços para tirá-lo da presidência a qualquer custo. No dia 10 de abril de 2002, foi convocada uma marcha amplamente divulgada nos principais canais privados do país. A concentração se dava na sede da PDVSA. Os mesmos canais de TV privados veicularam, então, uma declaração em entrevista coletiva do General Nestor González González, que disse que se Chávez não tomasse a decisão de sair da Presidência do país, que o alto comando militar faria por ele.

Em solidariedade ao Presidente, diversos setores populares foram às ruas e se reuniram em volta do Palácio Presidencial de Miraflores. Porém, a marcha opositora concentrada na PDVSA acirrou os ânimos ao se dirigir para onde os chavistas estavam concentrados. Houve confrontos, manipulações de imagens da TV e uma declaração de um Chefe da Marinha Venezuelana que conforme o documentário Guerra Contra a Democracia, do australiano John Pilger, foi dada como transmitida ao vivo quando na verdade já estava gravada.

A oposição responsabilizou Chávez pelo conflito. No dia 11 de abril aumentaram a pressão sobre ele quando ameaçaram bombardear o Palácio Miraflores, onde ele se encontrava. Encurralado, decidiu se entregar como prisioneiro político sem renunciar ao cargo. Foi levado para uma enfermaria na Baía de Turiamo, no Estado de Aragua, onde permaneceu incomunicável por quase dois dias.

Sem quase ninguém saber o verdadeiro paradeiro de Chávez, no dia 12 de abril os golpistas empossaram como presidente, clandestinamente, Pedro Carmona Estanga, líder sindical patronal. Na cerimônia de posse precária, diversas instituições foram dadas por suprimidas, como por exemplo o Conselho Nacional Eleitoral, o Ministério Público e a Defensoria do Povo. A essa altura, o sinal de TV do canal estatal, o Canal 8, já estava há horas em inoperância.

O panorama começou a favorecer a chamada Revolução Bolivariana na madrugada do dia 12 para o dia 13. Os chavistas, principalmente através de ministros do governo constitucional, trataram de informar a canais de TV privados internacionais que Chávez havia se entregado, porém sem ter renunciado. Iniciou-se então uma massificada articulação popular que fez com que milhões de cidadãos se dirigissem às imediações do Palácio Presidencial de Miraflores. Muitos deles com a Constituição do país em suas mãos. A Guarda Presidencial simulou uma operação de segurança do Palácio em razão do altíssimo número de manifestantes quando na verdade tratou de cercá-lo para iniciar a normalização constitucional do país.

Alguns golpistas conseguiram fugir. Outros foram presos e informados que teriam direito a um Defensor do Povo que atuasse para eles como advogado de defesa. Enquanto isso, gradativamente os setores militares do país declaravam estar com a via constitucional. O Vice-Presidente Diosdado Cabello foi empossado temporariamente para estabelecer a ordem constitucional de uma vez por todas. Horas depois, na madrugada do dia 13 para o dia 14 de abril, o Presidente Chávez voltava ao Palácio de Miraflores, a bordo de um helicóptero. Uma multidão de seus partidários o aguardava sob os gritos de “Chegou! Chegou, chegou, chegou! Chegou! Chegou!”, em ritmo de “Olê! Olê, olê, olá!”

Desde então, Chávez submeteu a Venezuela a diversos plebiscitos e referendos, nos quais teve uma proposta rejeitada, em 2007. No dia 7 de outubro de 2012, disputaria sua última eleição. Quando o Conselho Nacional Eleitoral anunciou sua vitória sobre o líder oposicionista Henrique Capriles Radonski, candidato pelo partido de direita Mesa de Unidade Democrática, Chávez proferiu um discurso de uma das sacadas do Palácio Miraflores para uma multidão vestida de vermelho, com a espada de Bolívar em mãos. Era uma das suas últimas aparições públicas.

Convivendo com um câncer já há algum tempo, o Presidente Chávez passou a viajar frequentemente a Cuba para se tratar. A piora do seu estado de saúde impediu a realização de uma cerimônia de posse. Porém, Chávez não resistiu e no dia 5 de março de 2013 seu então Vice-Presidente Nicolás Maduro anunciou a sua morte.

Por causa do falecimento, novas eleições foram convocadas. Pouco antes de morrer, Chávez já havia comunicado que caso alguma coisa lhe acontecesse, era para todo apoio se direcionar ao seu vice. Novamente o candidato da oposição seria Capriles. Quis o destino que novamente, num dia 14 de abril, o chavismo, desta vez sem o seu líder em vida, vencesse mais uma eleição 11 anos depois de uma covarde tentativa de golpe de Estado. Numa disputa apertada, na qual obteve 50,66% dos votos, Nicolás Maduro estaria apto não apenas a receber a faixa presidencial, mas também a carregar consigo a responsabilidade de mostrar a todos que o chavismo não é uma ideologia política personalista, mas um projeto político enraizado no povo venezuelano.

Os dias 10 a 14 de abril estarão para sempre na lembrança e coração dos venezuelanos porque constituem datas nas quais o povo foi protagonista das mudanças que desejava, seja nas urnas ou na resistência a golpes de Estado. Estes dias representam, acima de tudo, o exemplo de um povo que escolheu se despertar para construir a igualdade entre seus semelhantes.

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Um pensamento sobre “DE ABRIL DE 2002 A ABRIL DE 2013 NA VENEZUELA

  1. Lucas, a Venezuela, junto com Cuba são trincheiras contra o imperialismo. Cuba resistiu décadas e hoje avança contra o Imperialismo juntamente com a Venezuela. O Comandante Supremo Chávez levantou a voz da América na virada do século e semeou as bases do novo socialismo, o “socialismo do século XXI”, que você entende muito bem.

    Essa vitória contundente contra o Golpe de 2002 pode se equiparar com a vitória de Playa Girón, uma vitória popular que demonstra a força das ideias e a determinação de “construir la Pátria”. Como se diz em Venezuela: “hoy tenemos Pátria”. O Impe´rio não se cala, continua a sabotar a Revolução Bolivariana, mas sofre derrotas quando esperava superar a fortaleza do que a história eternizará como o chavismo.

    Sua leitura é perfeita sobre os fatos na perspectiva da luta de classes e acredito que estamos muito alinhados quanto à tática da revolução.

    Há braços!

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