CONSIDERAÇÕES ALVINEGRAS

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10 de abril de 2014 por Lucas Rafael Chianello

O Botafogo acaba de ser eliminado da Libertadores. O futebol mundial vive uma fase em sua história na qual o extra-campo muito influi no dentro de campo. É o profissionalismo.

As dificuldades extra-campo do Botafogo começaram a acontecer ainda na fase final do Campeonato Carioca do ano passado. Pouco antes da reinauguração do Maracanã foram descobertos problemas na estrutura da cobertura do Engenhão. Com a interdição do estádio foram perdidas várias fontes de receita. Voltaram a ser realidade os salários atrasados.

Campeão Carioca e com um robusto elenco, com opção em todas as posições, foram-se o Fellype Gabriel, peça importantíssima do time e o Andrezinho, que sempre que entrava, entrava bem.

Vitinho, promovido ao time titular, passou a desfilar um futebol envolvente e alegre. Quando se firmava como a maior revelação do Botafogo dos últimos anos, o depósito da multa rescisória pelo CSKA da Rússia o tirava do Botafogo. Não cabe aqui culpar a diretoria, na época acusada de vender jogadores para fazer caixa para pagar salários atrasados. A multa rescisória de um contrato tem valor previamente estipulado.  A partir do momento em que é depositada, cabe ao jogador escolher se aceita a transferência ou não. Vitinho escolheu tentar a sorte na terra de Tolstói e Dostoievski.

Vieram o Hyuri do Audax e o Elias do Resende, que atuaram bem em algumas partidas e fizeram gols decisivos noutras. Porém, mesmo sob a orientação de Seedorf o time perdeu rendimento, viu o Cruzeiro disparar na liderança do campeonato e terminou por conseguir a última vaga na Libertadores com a derrota da Ponte Preta na final da Copa Sul-Americana.

Bom, se no ano passado eu escrevia aqui e nas redes sociais que se não viesse o título o Botafogo estaria na Libertadores, para este ano eu escrevo: 2014 será uma longa e difícil temporada.

Os mesmos Hyuri e Elias já não estão mais no time. Junto com eles, foram-se os jovens Octávio, Sassá e Jefferson Paulista, jogadores que o Botafogo pretende utilizar no futuro emprestado para clubes pequenos. Irão desenvolver o que no período de empréstimo? Com todo respeito ao pequenos, já dizia Zico ao aconselhar o Marcelinho Carioca em início de carreira: “Esteja entre os bons e será tão bom quanto eles. Esteja entre os ruins e será pior do que eles”.

Foi-se também o Seedorf, a maior contratação estrangeira do futebol brasileiro, que ao conviver com a realidade sul-americana de salário atrasados, cravou em sua passagem por General Severiano que o Brasil não está preparado para ter em seus gramados jogadores europeus. Apesar de sua má campanha no Milan dar uma importância maior ao fato dele ter dito recentemente que era feliz no Botafogo.

Foi-se, ainda, o Rafael Marques, que de inquestionável perna de pau passou a ser peça fundamental do esquema do Oswaldo de Oliveira, que também se foi e levou junto sua comissão técnica. O que é a saída deste monte de gente, fundamental para o bom desempenho do time, senão um desmanche?

O Botafogo foi pra Libertadores sem a base que o classificou para ela. Ao precisar repor peças à altura, a única contratação que realmente pode ser considerada um reforço foi a do Bolatti. Não se discute a qualidade do Jorge Wagner, mas já é um veterano em fim de carreira. O Ferreyra, por mais que seja folclórico e divertido chamá-lo de El Tanque, caiu sozinho no ano passado depois de driblar o Victor. Atlético campeão da Libertadores. O Wallyson, que não se firmou em nenhum grande depois de marcar gols na Libertadores de 2011 (já faz tempo, não?) pelo Cruzeiro, não funcionou mais. Não dribla, não toca e se resume a ciscar do lado esquerdo do campo para levar a bola pro meio e tentar bater.

No lugar do Oswaldo, um bem intencionado e sereno Eduardo Húngaro incapaz de armar um time que agride o adversário. Como bem escreve Paulo Moreira Leite, vamos combinar. Mesmo com o time reserva no Cariocão, a campanha poderia ter sido melhor. Resultado a frente do time até aqui: eliminação na primeira fase do campeonato estadual, eliminação na primeira fase da Libertadores sem marcar gols nos últimos dois jogos, 39% de aproveitamento dos pontos disputados. Não é o que se espera de um técnico do Botafogo que disputa o segundo torneio continental mais importante do mundo.

Em regra, sou contra mudanças de técnico. Fosse um torneio de verão preparatório, como foi o Rio-São Paulo na década de 1990, até poderia aceitar. Mas estamos conversando sobre uma Libertadores da América. Inaceitável. Porém, como o Botafogo pagaria os salários de um técnico à altura do Oswaldo e dos jogadores que foram embora com receitas penhoradas e com o Engenhão interditado?

Salvo engano, o próximo jogo do Botafogo será no dia 20 de abril contra o São Paulo, pela estreia do Campeonato Brasileiro, no Morumbi. É assim que o Botafogo junta os cacos para iniciar o Brasileirão: com receitas penhoradas, com o Engenhão interditado, com salários atrasados, com protestos dos jogadores antes dos treinos, com um elenco bem limitado em relação ao do ano passado e em ano de eleição, no qual muitos candidatos a sucessor do atual presidente (não sou situacionista, nem oposicionista) provavelmente torcem pelo pior do Botafogo para, se eleitos, baterem no peito e dizerem que eles mudaram alguma coisa, não que o Botafogo mudou para melhor.

Mais do que nunca, o que resta ao torcedor do Botafogo é se apegar as tradições do clube e ter paciência. 2014 será um longo e difícil ano.

Jefferson, o único que talvez tenha atuado bem ontem, será convocado pelo Felipão e o Botafogo continuará a ser o clube a fornecer mais jogadores para a Seleção Brasileira em Copas do Mundo. Mais um para as estatísticas. Título, que é bom, vai demorar para aparecer.

Um longo e tenebroso inverno paira sobre General Severiano. Que a diretoria e os jogadores tenham o prazer de fazer inúteis as linhas deste texto.

Tudo indica que nos próximos campeonatos será assim: observar enquanto os outros comemoram.

Tudo indica que nos próximos campeonatos será assim: observar enquanto os outros comemoram.

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