O LEGADO POLÍTICO DE HUGO CHÁVEZ

Deixe um comentário

5 de março de 2014 por Lucas Rafael Chianello

1989. Cai o Muro de Berlim e, em semana de carnaval, porque não dizer que se abriu alas para o auge do discurso de desqualificação do socialismo a qualquer custo. Foi-se a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, foi-se a Iugoslávia titoísta e exceto alguns países, como por exemplo Cuba e a República Popular Democrática da Coreia, o mundo mergulhava na hegemonia do neoliberalismo, seguido de um gradativo processo de desmantelamento das estruturas dos chamados Estados de bem estar social, que não eram socialistas mas dispunham de uma chamada forte rede de proteção social.

Todavia, o que num primeiro momento parecia o caminho inquestionável para o alcance da felicidade e liberdade dos povos passou a se revelar um pesadelo social para a imensa maioria da sociedade. Quanto menor era a intervenção estatal na economia e quanto mais se deflagrava a privatização de empresas estatais, maior eram os índices de exclusão social. Daí a corrosão do neoliberalismo e a consequente construção de modelos sociais e políticos baseados em premissas estranhas à hegemonia do capital financeiro.

(…)De que há uma mão invisível do mercado e em todas as suas regras… Mentira! Mentira! Mil vezes mentira! Claro que há alternativas e o estamos demonstrando!

O descontentamento popular ao neoliberalismo, no caso da Venezuela em específico, é um pouco anterior a queda do Muro de Berlim e a conseguinte posterior hegemonia neoliberal. No dia 27 de fevereiro de 1989, medidas neoliberais do governo do então presidente Carlos Andrés Pérez tiveram como resposta uma revolta popular generalizada nas ruas de diversas cidades do país, de modo que os acontecimentos na capital, Caracas, fizeram com que o episódio ficasse conhecido como caracazo. Houve forte repressão policial que resultou em centenas de mortes.

Quase três anos depois, no dia 4 de fevereiro de 1992, o então tenente-coronel Hugo Rafael Chávez Frías liderava uma insurreição militar a partir de setores do exército venezuelano também descontentes com a situação social e econômica do país. Chávez foi preso. Porém, passou a ter enorme reconhecimento popular, o que culminou na sua eleição para presidente do país em 1998. A partir de uma plataforma governamental que não rezava a cartilha do Consenso de Washington, reformas sociais acompanhadas de forte participação popular nas decisões governamentais iniciavam a mudança do aspecto político venezuelano. Uma nova Constituição, aprovada por referendo popular, se tornou o marco de uma nova era política.

Porém, setores descontentes da elite venezuelana, aliado aos Estados Unidos e controladores dos principais canais de TV privados do país passaram a deflagrar uma constante campanha de desgaste do Presidente Chávez, a qual terminou no fracassado golpe de Estado perpetrado em 2002. Fortalecido pela recondução ao cargo de Presidente, Chávez deixava de ser apenas um anti-neoliberalista para assumir o socialismo.

Rica em petróleo, a Venezuela é apelidada por muitos de Arábia Saudita latino americana. O que sempre se estranhou na realidade sócio-econômica do país era tamanha riqueza petrolífera conviver com altos índices de extrema pobreza, ao contrário, por exemplo, da Noruega, que é o maior exportador de petróleo europeu e tem um dos maiores índices de desenvolvimento humano do mundo.

Coube a Hugo Chávez tomar a iniciativa para mudar este panorama. A aplicação das divisas petrolíferas em políticas sociais faziam os níveis de pobreza diminuírem a cada pesquisa realizada sobre o tema. Hoje, a Venezuela é a terceira economia da América do Sul, atrás apenas de Brasil e Argentina, ao mesmo tempo em que é o país de menor desigualdade social da região.

Revolução vem de re-evoluir, ou seja, mudar o sentido da evolução, desenvolver o novo. Chávez revolucionou a sociedade venezuelana a partir do momento em que proporcionou à imensa maioria da população de seu país o acesso a bens e serviços dos quais muitos eram privados. No campo da educação, em 2005 a Venezuela foi declarada livre de analfabetismo pela Unesco – Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura -, a partir da aplicação do método cubano Yo, sí puedo (Sim, eu posso).

A Venezuela deu passos exemplares na aplicação de políticas de segurança alimentar. Pouco antes da morte de Hugo Chávez, em novembro de 2012 a FAO – Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura – declarou que o país cumpriu uma das chamadas metas do milênio que tinha por prazo o ano de 2015. Já naquele ano a quantidade de pessoas sub-nutridas na Venezuela revelou-se inferior a 5%.

Quanto a saúde, também não podemos esquecer a parceria entre Venezuela e Cuba. A Misión Milagro proporcionou cirurgias de catarata e outras deficiências visuais a dezenas de milhares de venezuelanos de pouco ou nenhum poder aquisitivo. Enquanto isso, a Misión Vivienda faz da Venezuela um emaranhado de engenheiros civis das mais diversas nacionalidades. O objetivo é combater a especulação imobiliária e construir moradias ao necessitados. De 2011 até agora já foram mais de meio milhão de casas entregues.

Se o socialismo não é democrático, então ele não é socialismo

Ao contrário do que afirmam muitos dos que se opõem a Revolução Bolivariana, de tudo se pode reclamar na Venezuela, menos da ausência de democracia. Ao longo de sua carreira política, Chávez foi eleito presidente, bem como diversas leis, concessões de mandato e a própria Constituição foram aprovadas em referendos e plebiscistos. E quem atesta que a Venezuela é um país democrático? O nada suspeito Jimmy Carter, ex-presidente dos EUA.

Todo respeito se deve aos países e seus respectivos líderes que invocaram sua autodeterminação e soberania para construírem modelos políticos diversos do que rezava a “infalível” cartilha dos mercados. Se no final do século XX o socialismo foi reduzido a mero objeto de apreciação teórica com a queda do Muro de Berlim e a dissolução da Iugoslávia, ainda no apagar das luzes do século passado a Venezuela elegia o Presidente que novamente colocaria o socialismo na agenda política.

Basicamente, o chavismo é promover a igualdade social por meio da participação popular mais profunda possível, de modo que o Estado ofereça investimentos e estrutura em prol da satisfação das necessidades do povo. Passado um ano de sua morte, Chávez é orgulho para o povo venezuelano porque o fez forte ao liderá-lo na construção daquilo que é o seu maior legado não apenas para o povo venezuelano, mas para toda a humanidade: o socialismo do século XXI.

Durante os anos em que foi Presidente da Venezuela, Chávez deixou como seu maior legado a ideia de socialismo do século XXI.

Durante os anos em que foi Presidente da Venezuela, Chávez deixou como seu maior legado a ideia de socialismo do século XXI.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: