EU QUERO A COPA. E AÍ, COMO FAZ?

4

26 de janeiro de 2014 por Lucas Rafael Chianello

“Não vai ter Copa! Não vai ter Copa! Não vai ter Copa! Não queremos a Copa! Não queremos a Copa! Não queremos a Copa!”

Mas peraí, como assim não vai ter Copa? Eu sou cidadão, maior e capaz, eleitor, contribuinte e defendo a realização do torneio no meu país. Penso, no final das contas, ser positivo para o país que se realize a Copa.

Tenho críticas? Claro que tenho. Mas quero a Copa. E aí, como ficamos?

30 anos e um dia depois do grande comício na Praça da Sé pelas Diretas Já, não posso deixar de recordar da imensa importância que é votarmos nos nossos representantes. É óbvio que nossa democracia precisa ser aperfeiçoada e nosso sistema representativo precisa ser revisto, suprimido por um sistema participativo. Mas votar nos nossos representantes já é uma conquista e tanto da qual não cabe renúncia desse sagrado direito por qualquer motivo!

E o que isso tem a ver com a realização da Copa? Tudo, pois se numa eleição candidatos discutem suas propostas para convencer os eleitores a votar neles, o mesmo não podemos dizer sobre o “joguinho da velha, não vai ter Copa”. Colocam a ideia de que não terá Copa, é isso e ponto final. Se você não aceita, você está fora.

Isso é tudo, menos debate e cidadania.

Falta aperfeiçoarmos nossa democracia? Falta. Talvez a Copa tivesse legitimidade maior se sua realização no Brasil fosse autorizada por um plebiscito. Além de no Brasil não termos plebiscitos e referendos costumeiros e periódicos, não temos instituições públicas e estatais que dão maior poder de voz e decisão ao povo.

No entanto, quem realiza a Copa é a FIFA, uma entidade privada que não tem qualquer obrigação de nos prestar contas. Já começa por aí, quer queiramos, quer não. Mas se não devemos satisfações para a FIFA e nem ela pra gente, por que há um desperdício de dinheiro público tão grande para a construção e reforma de estádios? Ah, o santo dinheiro público!

Alguns debates no Brasil costumam se pautar pelo reino da ignorância absoluta, se não proposital e canalha. E a questão do dinheiro público aplicado para a realização da Copa é um desses assuntos. Todos os dias vemos jornalistas, políticos e cidadãos falarem num desperdício megalomaníaco que poderia ser aplicado na saúde e na educação. Alto lá!

Quer dizer que você, que acorda, trabalha e volta pra casa pra assistir televisão e entrar no facebook, que nem se lembra em quem votou na eleição passada, que diz que políticos são todos iguais e obcecados pelo poder, que diz que se dependesse de você nem pagaria imposto porque a saúde e a educação estão uma merda, você, agora, está preocupado com o altíssimo empenho de dinheiro público na realização da Copa?

Fique calmo, então. Respire fundo, relaxe e tente primeiro entender como são operacionalizadas as construções e reformas dos estádios para a Copa e aí sim depois você se convence do que é o correto pra você. A máxima jurídica vale, na verdade, para todos os âmbitos da vida: “Ao acusador cabe o ônus da prova”.

No meu caso, fiz a autocrítica e fui em busca das provas. A minha formação política é socialista. Por mim, o que menos haveria no mundo seriam empresas privadas de todos os tipos de segmento. Porém, não é assim que acontece. Vivemos num país capitalista que, no entanto, possui uma Constituição que permite determinada intervenção do Estado na economia. Em razão disso há uma instituição chamada BNDES, sigla de Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social.

Aí, por razões morais além de qualquer outra coisa, a velha pergunta de sempre: “de onde vem o dinheiro para a construção e reforma dos estádios da Copa?” Pois é, meu amigo e minha amiga, vem do BNDES. É nisso que devemos prestar a maior atenção.

Uma coisa é um governante utilizar o dinheiro oriundo dos impostos que pagamos para construir um estádio de futebol ao invés de uma escola ou um posto de saúde. Fosse isso, a reclamação seria mais do que legítima, mas não é assim. Se é que é crime construir estádios com dinheiro público, num país onde quase todos torcem pra um time e fazem as mais mirabolantes economias privadas para conseguirem comprar a entrada do jogo do time de coração no estádio.

Como já coloquei, sou socialista e preferiria que não concorrêssemos tanto com a iniciativa privada. Mas, como sempre escreve Paulo Moreira Leite, vamos combinar. Se no capitalismo defendo ao menos um Estado forte economicamente, prefiro que ele empreste dinheiro à iniciativa privada ao invés de ter de recorrer a ela para garantir o montante de dinheiro necessário para a execução das políticas públicas. O dinheiro empenhado na construção e reforma dos estádios para a Copa é empréstimo do BNDES à iniciativa privada. Dinheiro este que volta, posteriormente, com o pagamento de juros e correção monetária.

Realmente o céu não existe. Mas acredite, o calote no BNDES é o que menos se vê. A taxa de inadimplência é baixíssima, menos de 1%, ou seja, de cada R$ 100,00 emprestados, mais de R$ 99,00 são devolvidos com juros e correção monetária. Onde está o desperdício de dinheiro público com os estádios?

Porém, se turistas de pelo menos 31 países virão ao meu país, é minha obrigação recebê-los bem. Do mesmo jeito que eu gostaria de ser bem tratado lá fora. Dinheiro será injetado na economia e para que a rede hoteleira, por exemplo, dê conta de fazer reservas em hotéis e os quartos estejam sempre arrumados e limpos nos dias de jogos para um número maior de visitantes estrangeiros, não há outro jeito. Ainda não vivemos na realidade de Os Jetsons e empregos terão de ser gerados para que se dê conta da demanda.

E aí sim entra o Governo. Se o sujeito vem para o meu país, o mínimo que posso fazer é tratá-lo com respeito. Nunca fui pra fora do país, mas se fosse, não gostaria de ficar horas e horas no trânsito, no trem ou no metrô e demorasse para chegar onde quisesse ir. Eis aí o maior legado da Copa, já que ainda não inventaram o teletransporte: a mobilidade urbana. Turistas virão e andarão em metrôs, trens e veículos leves sobre trilhos que continuarão funcionando depois da Copa. E muito provavelmente pesará como motivo para que um turista volte pra cá ou indique o Brasil como próximo destino de um amigo. Este dinheiro, oriundo dos nossos impostos, será, portanto, gasto conosco, pois nós também poderemos usufruir destes mesmos veículos de transporte.

Sou um amante do futebol. Torço para vários clubes mundo afora. Mas hoje não estamos tratando da questão competitiva e sim da questão política, econômica e social que envolve o evento Copa do Mundo. E como eu escrevia, lá no começo do texto, meus argumentos, que são os mesmos de muitos, não tem sido levado em conta. Berram, com todo respeito, como gralhas que reproduzem a música de um vinil riscado, “não à Copa, não à Copa, não à Copa” e pronto, acabou.

Eu, na qualidade de cidadão brasileiro, quero a Copa. Os motivos estão expostos neste texto. E aí, como fica? Qual vontade prevalece? Como esta vontade prevaleceria? Há, pelo menos, a possibilidade de um acordo, de um debate justo, no qual ambas as partes se comprometem a dar a chance de ser convencida pela outra? Ou, no que pese eu adorar uma mesa de truco, se ganhará ou se perderá no berro?

Só um aviso: os simpáticos fusquinhas, carro mais importante da história da humanidade e seus donos, que geralmente não possuem dinheiro para comprarem o carrão do ano, não tem nada com isso.

Após se reunirem no vão livre do Masp, em São Paulo, manifestantes ateiam fogo num Fusca.

Depois de se reunirem no vão livre do Masp, em São Paulo, para protestarem contra a Copa, manifestantes mascarados ateiam fogo num Fusca.

Anúncios

4 pensamentos sobre “EU QUERO A COPA. E AÍ, COMO FAZ?

  1. Faltou apenas falar sobre os “incentivos fiscais” da prefeitura de sp aprovados pela gestão Kassab ao itaquerão (aos quais discordo), pois o município abre mão de impostos futuros. Houve também ajuda do governo do estado. No mais seus argumentos são bons.

  2. Diney Lenon disse:

    Gostei do texto. É isso mesmo: que a Copa seja um sucesso também para o povo, para os torcedores e que a direita não faça do evento da Fifa um meio de enfraquecer o governo progressista que temos.

  3. Greice Keli Alves disse:

    Sinto que as pessoas não estao percebendo o quanto estão sendo usadas pela direita ao realizarem estes protestos. Neste momento, por quaisquer que sejam os motivos, já não é hora deste tipo ingênuo de manifestação. Haverá copa. É fato consumado. A esquerda tem por obrigação torcer para que esta copa, mesmo com todas as suas contradições, seja um sucesso. O fantasma da direita está rondando as próximas eleições e não podemos dar munições para que o melhor governo possível no momento seja atacado. Parabéns pelo texto!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: