AÇÃO PENAL 470: ÚLTIMA DECLARAÇÃO

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16 de novembro de 2013 por Lucas Rafael Chianello

Todos os leitores deste Blog Chianéllico, os que me seguem nas redes sociais e os que me conhecem pessoalmente sabem como me posiciono sobre o processo da Ação Penal 470. Todos os fatos ocorridos até aqui, os quais culminaram, hoje, na entrega voluntária de José Dirceu e José Genoino na Polícia Federal, dispensam apresentações.

Infelizmente, a consciência não me permite concluir outra coisa que não seja reconhecer uma condenação de exceção, que desrespeita normas processuais e constitucionais de ordem pública para que houvesse justiciamento a qualquer custo.

Ensinamento básico que carrego comigo, com golpista não se negocia. E outro ensinamento básico que carrego comigo, não adianta tentar explicar para quem não quer entender.

Na qualidade de advogado regularmente inscrito na Ordem dos Advogados do Brasil, sempre procedi no sentido de debater tão apenas JURIDICAMENTE as questões que envolvem a Ação Penal 470. Nunca fiz dela um terreno para se pedir voto para alguém. Apenas defendi, conscientemente, que o processo fosse justo e respeitasse a ordem constitucional de nosso país.

Ainda sim, em muitos, inclusive conhecidos meus, está presente o ranço, o anseio de condenação a qualquer custo motivado por ódio político. Algo que só tenho a lamentar.

A jurisprudência criada pelo STF é perigosa. Os que hoje riem e zombam dos condenados podem ser as vítimas da tirania amanhã. Às pessoas que se dispuseram a mudar de opinião a partir do humilde subsídio jurídico que ofereci, meus agradecimentos. Procurei argumentar a partir do estudo leal ao direito, afastado de qualquer paixão política. Muito obrigado de coração ao voto de confiança.

Porém, da mesma forma que Darcy Ribeiro dizia que fracassou, mas não queria estar ao lado dos vencedores que se beneficiaram do seu fracasso, assim me sinto agora. Fracassei, em relação a outras pessoas, ao mostrá-las que se tratava de um julgamento político de exceção. A essas pessoas, meu profundo lamento. Prefiro constar como perdedor digno do que como vencedor que prefere o ódio e a ignorância ao conhecimento.

Reservo-me, ao menos, no direito de me estabelecer critérios discricionários pessoais para resguardar-me do convívio daqueles que defendem a exceção e a injustiça.

Não sou conivente com qualquer tipo de corrupção. Inclusive com a que avilta os julgamentos.

Abaixo qualquer vestígio de Estado de exceção!

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2 pensamentos sobre “AÇÃO PENAL 470: ÚLTIMA DECLARAÇÃO

  1. o petê e O PT
    Por Paulo Cássio Pereira
    Constantemente a mídia direitista/golpista e alguns partidos tentam culpar e imprimir de petê a tudo aquilo que não presta, ou seja, às mazelas das heranças culturais e politiqueiras que existem no Brasil, entre elas a falta de ética, a corrupção, a desigualdade social, etc. A pecha petê só existe na mentalidade de alguns gatos pingados que desconhecem a história coletiva das pessoas que incansavelmente e de forma aguerrida lutaram para a mudança da realidade brasileira. A mídia tendenciosa e alguns partidos de cultura conservadora de direita deveriam saber que alcunha ou apelidos não carinhosos geralmente são dados a bandidos e, por isso, precisam rever conceitos éticos das suas ações.
    Por outro lado o PT (Partido dos Trabalhadores) possui identidade/DNA, tem o nome respeitado porque é o Partido Político que na década de 80 teve seu nascedouro junto ao clamor popular direto das ruas com a participação efetiva dos movimentos sociais comprometidos com a esquerda, entre eles os sindicatos, as comunidades eclesiais de base da igreja ligada a teologia da libertação e ao movimento estudantil. Promoveu no país uma revolução no jeito de fazer política, dando oportunidade aos companheiros/militantes de resgatarem a esperança e debaterem a conjuntura política, num momento em que pensar de forma antagônica e ser crítico era crime contra o status quo do governo militar.
    Os verdadeiros companheiros não eram militantes só nos finais de semana. Eles não usavam o termo “vestir a camisa” porque isso é marketing empresarial capitalista, pois consideravam que nossa própria pele já é a nossa vestidura, muitos transpiraram e transcenderam os valores da vida e deram o sangue pela utopia de uma nova sociedade e política em suas comunidades.
    No Partido dos Trabalhadores os debates sempre foram acalorados, mas com riqueza ideológica devido a pluralidade de idéias. O PT era o grande arcabouço dos movimentos sociais de esquerda que funcionava como um grande plenário, porque a formação política e ideológica acontecia no enfrentamento vivido no cotidiano dos seus militantes nos lugares onde trabalhavam, estudavam e moravam.
    O PT no campo das idéias é carregado de valores e significados, além de representar uma transformação nos meios políticos do país. Primeiro porque ele nasceu nas bases e tem riqueza nos debates das causas populares. Só para lembrar de algumas das várias tendências dentro do próprio Partido: Articulação, Convergência Socialista, Trotskista e Lenilista, PT mais a Esquerda etc., sem aprofundar ainda que dele se originou várias lideranças que criaram outros partidos ou atuaram nas organizações não-governamentais que contribuíram para o fortalecimento da democracia.
    Os ventos das mudanças no mundo estão aí. Conotações religiosas à parte, percebam os sinais vindos desde a renúncia do papa conservador Bento XVI e a eleição do novo Francisco, latino-americano que celebrou uma missa para as comunidades eclesiais de base em Aparecida quando veio no concílio antes de ser papa, as denúncias e o destaque das legítimas manifestações populares e os anseios pela reforma política.
    Para concluir e fazer uma reflexão junto às críticas e as questões éticas na política, aos problemas internos do Partido e pensarmos qual PT queremos, gostaria de lembrar da seguinte história do avô em relação a seu neto adolescente que estava em crise existencial, brigava muito com seus colegas e deixava de frequentar a escola, que é a seguinte:
    – O avô convidou o neto para tomar um chá, pegou o bule e foi tornando o chá na caneca, que foi enchendo, enchendo até transbordar. O neto assustado gritou que a caneca estava cheia pois o chá derramado queimava a sua mão. Calmamente, o avô respondeu que aquela caneca significava a vida do neto que estava cheia de tudo e por isso transbordava arrogância, prepotência, sabe-tudo etc. O avô disse ainda que em determinados momentos da vida é preciso esvaziar-se para aprender, se abrir ao novo e ter mais sabedoria, e ensinou uma parábola de que dentro do ser humano teria dois cães na sua estrutura psicológica/emocional. Contou que dentro de nós existe um cão dócil, fiel, seguro, sabe o que quer, possui ternura com as pessoas, é festivo, trabalha, tem segurança e ajuda olhar a casa; mas também existe o outro cão inseguro, violento, que suja o ambiente, é agressivo, mete medo e ataca as pessoas. O neto curioso perguntou: _ E afinal, qual dos dois vence vovô? E o velho sábio respondeu: Vence aquele que a gente cuida e alimenta melhor…
    Paulo Cássio é professor de História e filiado no PT

  2. Muito profundo seu comentário e concordo com você.

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