CRÍTICA SEM AUTOCRÍTICA

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30 de outubro de 2013 por Lucas Rafael Chianello

Tamanha é a necessidade de discutir, de manter o senso crítico aguçado, que em determinados momentos a esquerda briga contra ela mesma. Qual era a obsessão de Allende segundo Patricia Verdugo, uma das estudiosas da experiência da Unidade Popular? A união da esquerda. E qual a causa da desunião, não somente no caso da Unidade Popular, mas de um modo em geral? A ausência da autocrítica.

Muitos se referem à necessidade de criticar, de não apoiar cegamente, de modo que se mantenha o controle contra a incoerência em nossas fileiras. Mas na mesma perspectiva de “todos dizem que a mídia manipula, mas ninguém se diz manipulado”, os críticos ferrenhos dizem ter todo o direito de criticar, mas não gostam de ser criticados.

Qual foi a postura da direita frente a licitação da exploração do Campo de Libra? Desolo total, pois o regime de concessão de FHC foi enterrado pelo regime de partilha. Finalmente, estaria a esquerda unida em torno da vitória da soberania nacional sobre o petróleo, uma vez que com o regime de partilha o petróleo permanece propriedade do Estado? Não! Tudo porque, na concepção de terem acima de tudo o direito de criticar para não se parecerem situacionistas suspeitos (o discurso da isenção é direitista), era preciso encontrar algum argumento contra a licitação de exploração do Campo de Libra. É preciso discutir a qualquer custo, à exaustão, o que inclusive é ponto pacífico, uma vez que a esquerda, praticamente por unanimidade, aprovou a exploração do petróleo via regime de partilha quando cuja lei foi sancionada por Lula.

Pior ainda foi ver alguns militantes criticarem antes de estudarem sobre o tema. Num caso que ilustra bem os desdobramentos do debate, um companheiro nosso de longa admitiu, nas redes sociais, que criticava a licitação do Campo de Libra sem saber do que se tratava o regime de partilha.

Em suma, primeiro bateram na tecla da estapafúrdia tese de entrega do pré-sal, da privatização disfarçada de concessão e/ou PPP (Parceria Público Privada). Já tinha sido publicado neste Blog Chianéllico que falar em entrega do pré-sal era e é mito. Porém, no sentido figurado da expressão, levaram um tremendo tapa na cara quando Dilma veio a falar em rede nacional. Restou, portanto, questionar o caráter “gabinetista” de um “governo moderadamente de esquerda que toma decisões sem consultar a população e os movimentos sociais sem se submeter à crítica”.

Alhos com bugalhos, substituíram um argumento por outro que não tinha nada a ver com o que acontecia para tentarem reverter o resultado de um debate perdido.

Pré-sal é pré-sal. Consulta popular é consulta popular. Liberdade de criticar é liberdade de criticar.

Os que bateram exaustivamente na tecla da privatização disfarçada do pré-sal erraram duas vezes. Primeiro, porque não compreenderam o que é o regime de partilha. Segundo, porque abençoados pelo direito de criticarem, não fizeram a autocrítica.

Assim se perdeu a oportunidade da esquerda comemorar com unidade uma vitória que é de todas as suas tendências e ramificações, pois a necessidade de criticar para não parecer um situacionista suspeito levou ao debate do incontroverso. E o incontroverso se debate quando falta compreensão. Ou autocrítica.

Atualização – Para não deixar passar despercebido

Após o fechamento deste artigo, o autor verificou em diversos blogs e nas redes sociais que os partidários do cancelamento da licitação do Campo de Libra se sentiram maltratados por sustentarem a divergência.

E nós, defensores da licitação, que fomos tratados como governistas chapa branca acríticos, como deveríamos nos sentir? Temos, obrigatoriamente, de concordar com as críticas? Os críticos, por serem os críticos, é quem estarão sempre certos? Ou não temos também o direito de divergir de quem diverge?

O interessante da política é que em alguns momentos há derrotados e vencedores sem que haja um placar. E como no futebol, já dizia este que vos escreve que “quem não aceita perder, não merece ganhar”. E tenho dito.

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