CARTA ABERTA AO PREFEITO MUNICIPAL DE POÇOS DE CALDAS, ELOISIO LOURENÇO

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27 de julho de 2013 por Lucas Rafael Chianello

Prezado Companheiro:

Primeiramente gostaria de renovar, mesmo que à distância, o apoio ao teu mandato. É bem verdade que não resido mais em minha terra natal, onde nasci, morei e vivi por quase duas décadas e meia da minha vida. Você é a expressão da antítese histórica coronelista que desde sempre governou minha terra natal. Você me representa, pode ter certeza!

Peço, portanto, que leia as linhas a seguir com a ternura de quem vê na sua gestão o melhor para nossa querida Poços de Caldas.

Sabe, Prefeito, esses “neo manifestantes” que recentemente entupiram a internet com joguinho da velha – o gigante acordou (#OGiganteAcordou) precisam aprender com nós, que estamos acordados há um bom tempo. Não vou dizer que estou acordado desde o dia que nasci, mas com certeza já estava acordado num fatídico 15 de dezembro de 2005, que entrou para a história de Poços de Caldas. Você se lembraria por que este dia entrou para a história? Sem arrogância, com ternura, eu te ajudo a recordar.

Naquela semana, o então Prefeito, Sebastião Navarro, aumentou o preço da passagem de ônibus de R$ 1,40 para R$ 1,60. Veja, portanto, que não é recente a discussão sobre como deve ser a política do transporte coletivo. Indignados, fomos às ruas do centro de nossa cidade, pacificamente, protestar contra o aumento.

As manifestações começaram por volta de 15h30min, 16h00min. A princípio, eram apenas alguns jovens que se manifestavam. Mas tamanha era a indignação com o aumento da passagem que diversos populares passaram a se aderir voluntariamente ao ato. Quem não aderia ao ato, aplaudia a iniciativa. Porém, na medida em que populares se aderiam ao ato, começava a aumentar o contingente policial.

Depois de saírem em passeata, pacificamente, pelas ruas do centro, os jovens voltaram ao terminal de linhas urbanas. Foi nesse momento, Prefeito, que eu cheguei. Eram pouco mais de 17h00min e eu não poderia estar na manifestação desde o início porque tinha horário de trabalho a cumprir.

Pacificamente, de modo tão apenas a demonstrar nosso descontentamento contra um aumento que toda a população considerou abusivo, fechamos as saídas do terminal de ônibus, de modo a segurar cartazes nos vidros destes para que os passageiros entendessem nossas reivindicações. Os passageiros de dentro do ônibus também passaram a nos aplaudir.

A partir desse momento, pouco antes, pouco depois, um dos manifestantes (cujo nome não vou citar para preservá-lo de qualquer represália) passou a negociar com os policiais o itinerário da manifestação. Ficou combinado, então, que após a ocupação do terminal de ônibus, onde cantamos o Hino Nacional, voltaríamos à Rua Assis Figueiredo. Mais uma vez, dava para se notar que o contingente policial aumentava e o clima começava a ficar tenso. Um misto de aplausos da população e vigia policialesca passou a tomar conta do cívico e ordeiro ato.

Quando então fomos para a Rua Assis, deflagrou-se a traição dos, com todo respeito, irresponsáveis pela segurança pública. Nós, manifestantes, fomos cercados pelos policiais no cruzamento da Rua Assis Figueiredo com a Avenida Francisco Salles. Tendo por referência o lado da via por onde passam os veículos, fomos encurralados no lado direito, por homens montados a cavalo mais diversos policiais que começaram a nos espremer contra a calçada utilizando-se de ponta pés dados com suas botinas militares, os coturnos.

Estávamos desarmados, protestávamos pacificamente, com apoio da população que nos assistia e se aderia ao ato. Diante da agressão, nos restava apenas gritar, repetidamente, as palavras de ordem “não à violência”. De nada adiantou. Vieram as balas de borracha e bombas de efeito moral e gás lacrimogênio que espalharam o pânico por todo o centro da cidade. As portas dos estabelecimentos comerciais começaram a fechar e muitos de nós fomos feridos com os tiros disparados. Repito e sempre exalto: protestávamos pacificamente e estávamos desarmados.

No meu caso em específico, admito publicamente que não tive a mesma coragem de meus companheiros. Sou medroso e sequer sei me defender de pernilongos com inseticida na mão. Quanto mais iria saber me defender de policiais agressores, ainda que fosse para minimizar os prejuízos corporais. Saí correndo com o estouro das bombas e quando estava a alguns metros da confusão, fui atingido com um disparo no peito que se tivesse me atingido alguns centímetros acima, teria furado meu pescoço e consequentemente eu estaria morto.

É aí que reside, Caro Prefeito, minha maior indignação: a mentira.

Quando fui atingido no peito, pude notar logo em seguida um objeto esférico preto, de borracha, pulando de volta em direção contrária. Fui atrás do objeto, mas este parou debaixo de um carro e eu não pude tê-lo em mãos. Mas até hoje ainda tenho uma marca no meu peito do tiro sofrido. Cicatriz que já foi bem mais evidente, mas ainda permanece. Mas onde estaria a mentira nisso tudo?

No dia seguinte, na edição noturna de um telejornal local, um então Tenente Coronel (salvo engano no que se refere a patente) da Polícia Militar endossou a ação da corporação e negou que tivéssemos sido atingidos por projéteis conforme eu vi e descrevi nesta carta. Exibiu frente às câmeras um objeto cilíndrico que, salvo engano, descreveu como de uso em outras circunstâncias.

Caro Prefeito, não intento aqui te prejudicar. Afirmo e reitero: estou do teu lado, você me representa. Rechaço, inclusive, qualquer tentativa de utilização deste texto, de minha autoria, por parte da oposição conservadora e oportunista de sempre que, não tão explicitamente, ainda, quer a tua caveira a qualquer custo. E tua caveira é a nossa caveira.

Portanto, uma vez que não pretendo “jogar para a platéia” e quero o bem da tua administração, que é o bem de todos nós, tenho o dever de afirmar que o sujeito que endossou a repressão policial sobre nós e afirmou que o tipo projétil que nos atingiu é diverso ao apresentado em rede de TV municipal, o então Tenente Coronel Lima, foi nomeado Secretário de Defesa Social da tua administração, eleita por nós.

Caro Prefeito, pode ter certeza que mais de 90% dos presentes e agredidos naquela ocasião votaram para que você fosse hoje Nosso Prefeito. Inclusive, abro contigo este canal de diálogo porque sei que teus dois últimos antecessores não me dariam atenção e importância cidadã.

O que nos diferencia de nossos adversários e inimigos é que nossa concepção sobre segurança pública não se origina em concepções da ditadura militar baseadas na ideia de que manifestante é baderneiro que atrapalha o trânsito. Temos, especificamente sobre segurança pública, a ideia de que todos estão cada vez mais seguros na medida em que todos são cada vez mais iguais, onde há, cada vez menos, a relação entre mais fracos e mais fortes.

Uma vez que não cabe a mim ficar apenas com a parte boa da ideia, há de se sugerir uma solução para um problema detectado. Peço, humildemente, na qualidade de filho da terra e teu eleitor, que se nomeie um Secretário de Segurança Pública dotado da ideia de que o resultado desta é a maior igualdade possível entre homens e mulheres, ao contrário do atual secretário, que ao endossar a agressão da Polícia Militar sobre nós naquele 15 de dezembro de 2005, deixa bem claro ser adepto da ideia de que segurança pública é tão somente policiamento ostensivo.

No mais, despeço-me consciente de que tua origem humilde e batalhadora, que o elevaram a vencedor da vida e do último pleito eleitoral, te dá a mais que suficiente sensibilidade para entender este nosso anseio. Perdão, mas dialética é diferente de incoerência. Logo, é contraditório que um Prefeito, que tenha origens nas lutas do povo, tenha em seu secretariado um sujeito que endossa agressões contra o próprio povo.

Um abraço e saudações daqueles que lutam por uma humanidade socialmente justa, fraterna e solidária. Contamos com tua sensibilidade perante nosso anseio.

Não vamos vencer, estamos vencendo!

Lucas Rafael Chianello, 27 de julho de 2013.

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2 pensamentos sobre “CARTA ABERTA AO PREFEITO MUNICIPAL DE POÇOS DE CALDAS, ELOISIO LOURENÇO

  1. Prezado Sgt Pereira,

    Não me lembro exatamente os termos do acordo firmado entre nós manifestantes(sim, eu era um dos manifestantes) e o Comando da Polícia Militar naquela tarde, mas tenho convicção de que o senhor tenha sido preciso na sua informação. No entanto, não é isso que está em jogo aqui. Independentemente da ação dos manifestantes, a Polícia Militar não agiu da forma correta naquele dia. A ação da PM foi totalmente desproporcional e violenta, demonstrando a natureza coercitiva dessa Instituição, o que não me espanta nem um pouco, dada a natureza ideológica da formação de seus oficiais.

    Infelizmente sua informação relativa ao histórico da Corporação é imprecisa. Existiram sim, instituições militares no nosso Estado que remontam aos 238 anos que o senhor citou, no entanto, a PM como a conhecemos hoje, foi de fato criada no período de Ditadura Militar no Brasil, com a clara intenção de coibir e coagir a população a se submeter ao referido governo. Hoje, mesmo em tempos democráticos, receio que a Polícia Militar ainda não tenha perdido essa natureza. Dentro desse modelo de Polícia, concordo que a PMMG seja uma das mais competentes instituições policiais do país, no entanto, na minha opinião, longe de aboná-la, tal condição a diminui.

    O debate levantado pelo autor do texto, passa longe contudo das questões que abordei acima, que visavam somente introduzir o que venho a dizer em seguida. O Partidos dos Trabalhadores, com o intento de ser uma alternativa democrática e popular, reagindo ao sistema ditatorial que nosso país viveu entre as décadas de 60 e 90 do século passado. Sendo assim, concordo totalmente com o meu xará, quando ele questiona a indicação do Coronel Lima ao posto que atualmente ocupa, já que nosso Prefeito pertence ao PT, e espera-se dele que seja coerente com a história de luta dos seus partidários, bem como da política que consagrou a agremiação partidária da qual ele pertence. Não conheço o cidadão Lima pessoalmente, imagino que seja um ótimo indivíduo e que possua grande competência dentro daquilo que a PMMG imagina como o correto, no entanto, ele representa algo que não possui relação direta com os ideais que fundaram nosso Partido, e o que ele vê como correto, é o oposto do que eu vejo.

    O papel da polícia é proteger os cidadãos(todos eles!) e a ação do referido comandante no dia 15 de dezembro de 2005 não observou essa premissa. Quando a ação policial é repressiva e excessiva, como naquela triste tarde, ela apenas corrobora para que o necessário debate sobre a necessidade da existência de um policiamento de natureza militar exista no nosso país, aumente.

    Finalizando, gostaria de deixar claro que não tenho nenhum problema pessoal com a Polícia Militar ou com qualquer um de seus integrantes, pelo contrário até…possuo a honra de ter vários amigos dentro da Corporação, todos eles pessoas dignas pelas quais possuo grande respeito e admiração. No entanto, não me agrada a doutrinação ideológica que leva nossos policiais a protegerem sempre os interesses do capital, em detrimento das liberdades individuais dos cidadãos.

    Sem mais, Lucas André Marciano, Professor de História e militante político.

  2. Cidadão Lucas Rafael, boa tarde!

    Entendo a sua indignação e descontentamento com o Segurança Pública, no entanto, caso você esteja em outro Estado verá que a prestação de serviço, comumente pela Polícia Militar do Estado de Minas Gerais está acima do esperado.
    No que diz respeito a manifestação de vocês em 2005, desculpe-me, mas vocês desrespeitaram o acordo que havia sido feito. O acordo era para vocês utilizarem uma faixa da pista e a outra seria liberada. Importa salientar que era horário de pico e o trânsito estava todo congestionado, não havia como evacuar o trânsito para outro local ou outra via. Vocês simplesmente, através de alguns líderes, alguns hoje são políticos, desrespeitaram o que havia sido combinado e sentaram nas duas faixas da Rua Assis Figueiredo, dificultando o trabalho da Polícia Militar e impedindo a circulação de veículos, entre outras barbaridades que ouvimos e vemos. Portanto, seja honesto nas suas palavras e não tente comprometer um trabalho sério que vem sendo desenvolvido a 238 anos pela a nossa Gloriosa PMMG.

    Atenciosamente,

    Pereira, Sgt PM.

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