NEM MUITO ORGULHO, NEM MUITO AMOR

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1 de julho de 2013 por Lucas Rafael Chianello

A seleção brasileira mereceu e impôs uma goleada, acompanhada de um belíssimo baile, no atual bicho papão do futebol mundial. Ao contrário da Copa das Confederações passada, disputada na África do Sul, este título tem um significado e tanto. Dessa vez, não tinha a desculpa de ser um torneio teste pré-Copa. Brasil, Itália e Uruguai buscavam melhorar e se reafirmarem como potências futebolísticas, enquanto a Espanha queria se testar contra o Brasil.

Até algumas semanas, mês e meio atrás, o Brasil vivia a sua maior fase de desconfiança desde a eliminação precoce na Copa de 1966. Nem os 24 anos sem título, de 1970 a 1994, colocaram o nível da auto estima do futebol brasileiro em patamar tão baixo. Atualmente, demorou para que o único pentacampeão mundial vencesse um dos grandes do futebol mundial em amistosos. Depois de derrotas e empates com Inglaterra, Argentina, Alemanha e Itália, 3×0 na França, antes da Copa das Confederações, com Lucas, Oscar e Hernanes.

As coincidências não param por aí. Naquela época, o maior crítico de todo aquele momento foi chamado para arrumar a casa e reanimar um futebol então abalado com o duro golpe de misericórdia dado por Eusébio em gramados britânicos. Ele junta os cacos, forma o seu time base e classifica o Brasil para a última edição da então Taça Jules Rimet, vencida em 1970, no México.

Porém, o cartão de visitas veio também no Maracanã, num amistoso contra os então atuais campeões do mundo, os próprios ingleses. 2×1 placar final e estava consagrado um time que entrou para a história como “As feras do Saldanha”. O famoso “escala teu ministério que eu escalo a minha seleção” e a cegueira do Pelé deixamos para outra postagem.

Hoje muito não foi diferente. O detalhe que muda é já estar classificado para a Copa por ser o país sede. Assim como às vésperas do tri, precisava-se de um teste de alto nível para se dizer que o Brasil tem time para ser campeão do mundo novamente. Pois não restam mais dúvidas. Natural que devido a contusões e até mesmo às apresentações dos jogadores em seus clubes, principalmente os europeus, Felipão mude uma ou outra peça. Mas dificilmente mudará o esquema de jogo e o time base. Sim, o Brasil, que até semanas atrás era visto com desconfiança passa a ser um dos favoritos ao título, ao lado da própria Espanha, Alemanha, Itália, Argentina e Holanda.

Discorrido o fato campal, vamos ao que se trata fora dele.

Primeiramente, todo apoio deste que vos escreve à Copa e às Olimpíadas aqui. Com ressalvas, mas sem deixar de apoiar, pois como já cantava Guilherme Arantes, “infelizmente nem tudo é exatamente como a gente quer”.

Não discordo da modernização dos estádios brasileiros. Arquitetura é algo que se muda com o tempo. Normal que aqui também tivéssemos estádios construídos ou reconstruídos a partir de uma abordagem moderna no que se refere às suas disposições arquitetônicas, bem como às acomodações, dado o que se exige atualmente em termos de conforto para se assistir uma partida de futebol.

Não tem também essa história de “gastou-se com estádios o que poderia ser investido em cultura, saúde e educação”. Uma coisa seria o poder público empenhar verba nisso diretamente para que fossem construídos os estádios. Porém, a Presidenta Dilma (seja lá qual for a sua posição, leitor, sobre o atual governo) deixou bem claro do que se trata: empréstimos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) para que as construtoras responsáveis erguessem os estádios. Um dinheiro que voltará para os cofres públicos corrigido e atualizado.

Se você tem dúvidas disso, um desafio: compare a taxa de inadimplência do BNDES com os demais bancos públicos e privados do Brasil.

Tem também a história do complexo de vira latas. Já sediamos uma Copa do Mundo aqui, vamos sediar outra e teremos aqui, também, a primeira edição dos jogos olímpicos no hemisfério sul da Terra. Que passem por aqui, também, os maiores atletas do mundo das mais diversas modalidades.

Por outro lado, todo o meu repúdio à elitização do espetáculo e da cultura do futebol. A sofisticação proporcionada pelas modernas “arenas” encarece absurdamente os ingressos, de modo a afastar a classe trabalhadora do estádio. É ela que com bandeiras, faixas e gritos de guerra proporciona o espetáculo popular à parte. Com a sofisticação das arenas, o que se vê nas arquibancadas? Uma elite branca que se comporta como se estivesse numa quadra de tênis!

Desafio aos estatísticos de plantão: levantem o perfil sócio econômico e étnico de quem frequenta os novos estádios, de qual tipo de brasileiro foi assistir a Copa das Confederações, de qual tipo social brasileiro irá assistir a Copa do Mundo.

Outro fator extremamente condenado por este que vos escreve: o conjunto de leis aprovadas, exigidas pela Fifa, para que a Copa se desse aqui. Somos um país soberano que não está à venda nem disponível para aluguel. Aqui tem, acima de tudo, um povo que tem seus costumes e seu próprio ordenamento jurídico, sua Constituição. Se a Fifa quer sediar seus eventos aqui, ela que deveria se adaptar a nós e não nós a ela.

Por fim, todo o meu repúdio ao tratamento dispensado à seleção espanhola, que categoricamente e sem nenhum despeito reconheceu a inquestionável superioridade da seleção brasileira e, do ponto de vista desportivo, podem ter certeza que foi embora com a sensação de terem perdido o maior desafio de sua história depois das conquistas que a alçaram ao topo do futebol mundial.

Até é normal esse sentimento presente no nosso inconsciente coletivo de torcer para o mais fraco, de nos empenharmos em ver a qualquer custo a queda do mais forte. Somos fruto de uma tradição judaico-cristã que nos ensina que Davi venceu Golias. Portanto, nada mais que normal vaiar o estilo de toque de bola dos herdeiros de Navarra e Castela.

Mas que é um baita dum despeito, duma infantilidade e duma imbecilidade sem tamanho atribuir aos espanhóis algo que eles não são, isso é. Primeiro, é a cobertura canalha e ordinária de uma imprensa desportiva “big brotherizada” interessada em saber se os espanhóis faziam farras com putas no hotel. Como se isso fosse alterar alguma coisa, como se muitos jogadores brasileiros também não gostassem de um puteiro.

Pergunte em off a um jogador qualquer da seleção brasileira que joga lá fora e vê se pelo menos uns dois ou três, na pior das hipóteses, não te dão um roteiro completo dos bordéis europeus que frequentam, principalmente quando são campeões nacionais pelos seus clubes.

Se há algo, inclusive, que mesmo com a vitória temos de aprender com os espanhóis, é a tal da patifaria das concentrações, que visam tratar os jogadores como gado e nada mais, para que os patrocinadores tenham a maior proximidade possível da certeza de que seus homens propaganda renderão bem diante das câmeras de todo o mundo. O Barcelona, por exemplo, ganhou tudo nos últimos anos e seus jogadores não se concentraram uma única vez. Aqui, jogador concentra para que a balada não o prejudique. Enquanto dormem no quarto de hotel dividido com um companheiro, os dirigentes estão lá, torrando grana, às vezes do próprio clube, nas casas da luz vermelha.

Por que tanto despeito? Por que se o Brasil não ganhar, está errado? Por que não ter a humildade de reconhecer, mesmo com a acachapante vitória de hoje, que a Espanha evoluiu, se superou e passou a jogar, de longe, o melhor futebol do mundo, que inclusive lembra as tradições do futebol brasileiro – quem corre é o jogador, não a bola?

Pior, ainda, é rir da grave crise que hoje assola o povo espanhol. Parabéns para o Brasil, que nos últimos 10 anos constrói um modelo econômico que nos aproxima do pleno emprego. Mas quem se lembra do passado, quer que ele se repita? Achava bonito ver Ronaldo, Romário, Pelé, Gérson e Garrincha ganharem tudo enquanto milhões a mais do que hoje viviam abaixo da linha da pobreza? Neste ponto, a Espanha nada mais é do que o Brasil de ontem. Estamos rindo do que? De um passado do qual nada orgulhamos?

Tenho sim orgulho de ser brasileiro, mas dispenso este orgulho para coisas que realmente acrescentam. Não torço para o futebol verde e amarelo desde aquela palhaçada na final da Copa de 1998 e admito que ver o acusado de ser o assassino do Vladimir Herzog no alto comando do nosso futebol só me faz ter ainda mais nojo, raiva e ódio.

Mas uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. É assim, portanto, que reconheço a indiscutível vitória do selecionado brasileiro sobre um gigante do futebol atual: nem muito orgulho, nem muito amor.

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Um pensamento sobre “NEM MUITO ORGULHO, NEM MUITO AMOR

  1. Lucao disse:

    Muito bom, o texto. Tenho algumas discordâncias, e dada a minha natureza combativa, vamos à elas:

    Não concordo em relação aos estádios. Modernização é claro, é algo salutar, no entanto, julgo que muitos erros foram cometidos. Comecemos pelo Maracanã: O estádio passou recentemente por reformas e não havia a menor necessidade de outra. Me parece claramente uma oportunidade de negociata. Além disso, a retirada da marquise é uma violência contra o patrimônio histórico e cultural do país, violando inclusive a legislação.

    Além disso, questiono veementemente outras construções. O estádio do Recife é uma aberração. A cidade possui 3 equipes de médio porte, e todas elas possuem estádio próprio. Não consigo compreender qual é o sentido de se construir um estádio novo numa região afastada da cidade….Isso sem falar em estádios em cidades como Cuiabá, Manaus e Brasília, cujos campeonatos locais não possuem média de público de sequer 1.000 pagantes. O que será feito com esses estádios depois? Independentemente desse dinheiro voltar para os cofres públicos, é necessário que questionemos a função social de obras faraônicas como essas, especialmente sabendo que pessoas foram desalojadas nas cercanias para que as obras fossem levadas a diante. Nem vou falar sobre o “Gambazão” para não me acusarem de clubismo, embora seja de conhecimento geral, que o estádio palmeirense ficará pronto antes, e possui o tão alardeado Padrão FIFA, e sem um centavo de empréstimo do BNDES e nem incentivo fiscal algum.

    No mais, só tenho mais uma leve discordância em relação às vaias para a Seleção Espanhola. Realmente o tratamento da mídia foi lamentável, mas a mídia brasileira sempre é lamentável, então tudo normal. Só acho que no estádio, nada mais natural que se vaiar o principal rival na competição…tem horas que acho que o futebol tá ficando chato demais…meio moralista.

    Enfim, tirando esses pormenores, ótima análise!

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