OS TRÊS ACERTOS DE MARILENA CHAUÍ

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29 de maio de 2013 por Lucas Rafael Chianello

No último dia 13 de maio, Marilena Chauí, Emir Sader e Marcio Pochmann lançaram, com a presença de Lula, o livro 10 anos de governos pós-liberais no Brasil: Lula e Dilma. No que se referiu à fala de Marilena, três acertos devem ser destacados.

Primeiramente, ao se dirigir a Lula como o “Meu Presidente”, Marilena acerta ao discordar da idéia de ascensão das classes E e D para C, B e A, conforme defendido pelo PT e pelo próprio governo em propagandas eleitorais e institucionais. O conceito de classe social, extraído da sociologia, não se dá simplesmente conforme a renda de cada um, mas sim, nas palavras de Marilena Chauí, conforme a inserção de cada um nas relações e meios de produção privados. Ou seja, não se delimitam classes sociais de acordo com índices governamentais.

Portanto, o que se tem no Brasil a partir de programas assistenciais de transferência de renda não é a ascensão de pobres às classes C, B e A, mas sim a transformação das condições de vida da classe trabalhadora. É aí, inclusive, que reside o segundo acerto da filósofa.

Ser paupérrimo não é sinônimo de ser trabalhador. Independentemente da remuneração que lhe é paga, o trabalhador assim se caracteriza por vender a sua mão de obra, uma vez que possui a força de trabalho mas não é proprietário dos meios de produção. Em termos sociológicos, o desempregado ocupa o que se chama exército de produção de reserva. Desta feita, é equivocado conceber que enquanto uma pessoa que recebe R$ 1.200,00 é de classe X enquanto a que recebe R$ 4.000,00 é de classe Y. A única diferença é que o poder aquisitivo do salário deste é maior do que daquele, mas ambos são trabalhadores.

Por isso novamente acerta Marilena Chauí. Os milhões de empregos gerados e a elevação do poder de compra do salário mínimo ao longo da última década, somados ao sucesso dos programas assistenciais (também chamados de transferência de renda), moldam uma nova classe trabalhadora no Brasil, que passa a usufruir de melhor qualidade de vida a partir do momento em que o salário e a renda dos programas assistenciais podem ser trocados por maiores quantidades de bens e serviços destinados às satisfações das necessidades humanas primárias e secundárias.

Se POSTOS DE TRABALHO são criados, as pessoas melhoram sua qualidade de vida porque quando passam a ter a CARTEIRA DE TRABALHO ASSINADA, podem ter acesso a bens e serviços trocados pelos seus salários. Isso não é sair da classe E ou D para a C, B ou A. Isso é melhorar a condição de vida do trabalhador.

Por fim, o último acerto de Marilena. A “classe média” não aceita que negros e estudantes de escola pública ocupem bancos universitários, não aceita que o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) seja o fim da indústria do vestibular.

A “classe média” não aceita a segurança alimentar, não aceita que os salários dos trabalhadores possam prover a subsistência humana. Tampouco aceita que desempregados possam se alimentar. Só podem ter acesso ao leite e à farinha aqueles que possuem considerável renda no final do mês. Logo, o aumento do poder de compra do salário mínimo e os programas assistenciais são políticas populistas que sustentam vagabundos com dinheiro público.

A “classe média” não aceita que pessoas com menor poder aquisitivo também possam ter seus carros e viajem de avião. “Vá de ônibus, são as tradições desta república”, já ironizava o personagem Marco Gracco, de Marcelo Adnet.

A “classe média” não aceita que todos possam ter suas casas para morar, ainda que mais humildes. Se não foram competentes o bastante para trabalhar, receber um bom salário, comprar os seus tijolos e contratarem seus engenheiros e pedreiros, que morem na rua. Não aceita que o governo desenvolva políticas para a casa própria porque a renda do recebimento de aluguéis pode vir a ser prejudicada.

Para a “classe média”, somente ela sabe falar e escrever sobre política porque somente ela e seus filhos frequentaram as melhores escolas às quais se pode pagar mensalidades, pois a escola pública é e deve ser apenas um paliativo para aqueles que não puderam pagar pelos seus estudos.

Em suma, a chamada “classe média” não aceita o sucesso do governo de um Presidente vindo do operariado que fez a sua sucessora, de modo que todo o vocabulário chulo e vulgar vai além do esgotamento quando utilizado. Principalmente nas colunas e editoriais dos chamados “grandes jornais” da imprensa falada e escrita, pois uma vez que não tem projeto político para o país, resta a ela ter nos grandes meios de comunicação privados do país e no judiciário de exceção os seus representantes.

Portanto, o terceiro acerto de Marilena Chauí é o mais contundente dos três: a classe média é o que há de mais abominável, fascista, terrorista e preconceituoso no nosso país, ao mesmo tempo em que sequer sabe quais são os critérios sociológicos que a define como classe.

Atualização: durante a elaboração da postagem, procurei mas não achei o link para a versão eletrônica do livro citado no texto. Quem quiser conferir, é só clicar aqui.

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2 pensamentos sobre “OS TRÊS ACERTOS DE MARILENA CHAUÍ

  1. […] Reblogged from Blog Chianéllico: […]

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