CARTA ABERTA AO RENATO SANTIAGO BANDOLA DE OLIVEIRA, NOSSO QUERIDO MAURÃO

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4 de maio de 2013 por Lucas Rafael Chianello

Caro amigo e irmão, quando estávamos no colegial, já nos formando verdadeiros cidadãos, eu já revelava minha tendência ao socialismo. Naquela época, ainda pecava na formulação de alguns raciocínios sobre a proposta política da esquerda. Inocência de adolescente. Mas até hoje guardo comigo muito daquelas nossas conversas com amigos interessados em algo que realmente vale a pena.

De certa forma não me culpo, pois não tínhamos naquela época a informação que temos hoje. Enquanto a chamada “grande mídia” sempre foi a mesma merda de sempre, mais desinformando do que informando, a internet muito evoluiu. Naquela época, era um crime contra a conta de telefone conectar-se dia de semana. Hoje, com o cabo, sei lá quantos Gs e fibra ótica popularizados, os mais novos, que já acham vídeo cassete e discos de vinil as maiores esquisitices do mundo, com certeza também estranharão que há 10 anos a bagaça era por telefone. Conectados o dia inteiro no final de semana para pagar um só pulso. O que era garantido pela atendente do outro lado da linha quando se telefonava no serviço ao consumidor.

Pois bem, Maurão. Essa tal da banda larga veio acompanhada de um programinha bem louco, o tal do Google Earth. Um dia resolvi utilizar a bagaça e pensei comigo que queria um destino exótico, diferente. 1… 2… 3… já sei! Pyongyang! Tamanha foi a minha surpresa.

O que sempre soube da Coreia Socialista? Em suma, uma dessas ditaduras comunistas corruptas equivalentes à uma versão terráquea do inferno. Como sempre concebi? Socialista, só no nome. Trata-se de um bando de psicóticos que oprime seu próprio povo e usurpa o marxismo. Verdade é que já pensei e falei muita baboseira nessa vida também.

Fosse para conceituar Pyongyang a partir do que vi pelo Google Earth, chamaria de ‘um modelo socialista de planejamento urbano”. Uma capital limpa, sem engarrafamentos e estresse no trânsito, constituída de diversas construções tradicionais e modernas que convivem muito bem entre si. Destaque para os monumentos construídos depois da refundação socialista do país.

O tempo passou e depois de um longevo intervalo após viagem via Google Earth (ainda chego lá de trem pela China e volto pela Koryo Air), quando nos dá aquela súbita curiosidade, lá fui eu atrás de informações sobre este já não tão satânico povo coreano socialista. Vídeos no youtube, páginas dedicadas ao país e a página oficial do governo. Conclusão: eu tinha de aprender sobre a Coreia Socialista. Ela pode ser tudo, menos esse grande satã opressor pintado pela propaganda midiática judaico-cristã ocidental.

Enfim, Maurão, para que a parcela norte da Coreia se construísse socialista e Pyongyang fosse um modelo socialista de planejamento urbano, muito sangue rolou. Como escreveu Mao Tsé-tung em seu Livro Vermelho, com todo respeito ao povo japonês como um todo, “os comunistas japoneses são contra a vitória japonesa na guerra”. Isso Mao escreveu durante a Segunda Guerra Mundial. Pois bem, Maurão, a Coreia, ainda unificada, viu milhares de suas mulheres servirem de escravas sexuais para o exército japonês. Veio a guerra da Coreia e na época, Pyongyang, que tinha aproximadamente 400.000 habitantes, foi literalmente destruída, reduzida a ruínas, por 420.000 bombas do exército estadunidense. Sim, Maurão, a Coreia Socialista foi o primeiro país do mundo a vencer os EUA numa guerra.

Muito poderíamos escrever nesta postagem sobre a Coreia Socialista. Sua capital, além de ser um modelo socialista de planejamento urbano, não convive com o estresse de engarrafamentos causados por uma indústria automobilística que necessita entupir nossas ruas de carros descartáveis. Todos tem educação e saúde públicas e gratuitas, como manda o manual socialista. Assim como Cuba, inclusive, trata-se de um modelo de saúde pública que não deve nada a um plano de saúde privado do chamado primeiro mundo.

Nos esportes, ficaram na frente do Brasil no quadro de medalhas das últimas Olimpíadas. Mas o principal estádio do país, maior do que o nosso reformado Maracanã para a Copa (onde o Botafogo conquistou o último do estádio até então, sobre o Flamengo, com cavadinha do Loco Abreu. Ah, você é flamenguista? Foi mal pela lembrança), é palco do Arirang Mass Games, que acima de tudo é um show de coreografia que coloca no chinelo qualquer abertura de Olimpíada já realizada.

Este país é militarizado? Sim, mas não para oprimir sua população. Armas não se combatem com canetas ou palavras e todo país tem o direito de se defender de intervenções estrangeiras. O que queríamos da Coreia Socialista diante das frequentes ameaças e sanções dos EUA, motivadas por puro revanchismo? Quantos cidadãos foram mortos por guerras causadas por invasões da Coreia Socialista? E quantos foram mortos pelo exército dos EUA? Quantas bombas lançadas pela Coreia Socialista já destruiu cidades ao redor do mundo? Quantos complexos prisionais a Coreia Socialista tem ao redor do mundo de modo a ser acusada de tortura e desrespeito aos direitos humanos?

É lição básica de direito internacional que todo povo tem direito à sua autodeterminação e soberania. A Coreia Socialista não é um ex-protetorado da União Soviética, tanto que esta se desintegrou e aquela continua. É um país como qualquer outro que escolheu continuar seu modelo de socialismo após a queda do Muro de Berlim.

No mais, meu amigo, em tempos nos quais cartas abertas são acompanhadas de vídeo, creio que o que segue abaixo mostra uma Coreia Socialista muito mais fidedigna. Assim como a série sobre a Coreia Socialista, Não conta lá em casa, outrora exibida no canal pago Multishow. Vale a pena conferir.

Um grande abraço e, se me permite, viva a Coreia Socialista!

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Um pensamento sobre “CARTA ABERTA AO RENATO SANTIAGO BANDOLA DE OLIVEIRA, NOSSO QUERIDO MAURÃO

  1. Olá querido amigo Montoya! Sim, desde sempre tenho acompanhado sua luta ideológica a favor de uma sociedade mais justa e igualitária em um país capitalista como o nosso. Realmente não é de agora que sabemos como psicólogos que o ser humano, quando nega sua subjetividade (que engloba todos os seus conceitos morais construídos dentro dele mas sem que este o veja) decide ver o que quer ver e ouvir o que quer ouvir. Ele pinta seus jornais, manchetes a favor de seus preconceitos para manter seu status quo. E quando digo ser humano, coloco a Koréia e os EUA nesse grupo. Isso significa dizer que o demônio dos EUA é justamente o poder o qual ele nega querer adquirir em detrimento da liberdade dos outros, o capitalismo se tornou uma força cega que só enxerga o poder porque é muito ingênuo para reconhecer que o poder em sua natureza não engloba o outro em termos de igualdade, mas somente enquanto subserviente ou consumidor de seus produtos, consumir não ajuda a ninguém enquanto sempre permanecemos com a mesma esperança frustrada em melhorar de vida materialmente, ou seja, produzimos e consumimos para melhorar de vida, mas o consumo faz com que ficamos no mesmo pé. Já o demônio da Koréia é justamente a ingenuidade do saber sobre o outro. Afirmam que sabem as reais necessidades do ser humano mas ignoram que o poder também é uma necessidade, poder de determinar-se e saber o que é bom socialmente para si. Assim, acaba massificando as pessoas, destituindo elas de sua singularidade, por se tratar de materialismo histórico, reduzem o ser humano a puras necessidades materiais. Contam-se muito os números positivos do igualitarismo material, mas se esquecem que a maioria das necessidades foge a estatística como estima, realização pessoal. O que faz com que as pessoas se estimem é o fato delas se apropriarem do mundo material a sua maneira. Existem pessoas que escolhem ter menos, para trabalhar menos horas para fazerem o que gostam que já é uma grande realização. Ao passo que existem pessoas que querem trabalhar mais para terem mais por se sentirem menos diante dos outros. A questão aqui é acreditarem ingenuamente que possuem um saber absoluto acerca do que se entende por igualdade social. Um sistema político íntegro e coerente é aquele que aceita que em sua regra existem as exceções e que essas exceções devem ser consideradas e respeitadas. Isso significa que ambos os sistemas devem das mostras de seu fracasso em gerir o Estado de maneira X ou Y. Se isso não ocorre, se ambos os países não conseguem aceitar e conviver com suas exceções (humildade), o que ocorre é um totalitarismo EUA e/ou Koreano. Onde ambos projetam a causa de seu fracasso intrínseco no outro para eliminarem suas falhas e tentar elevar seu sistema ao absoluto ignorando as relatividades. Portanto Montoya, não critico nem o EUA nem a Korea, sei que olha-se a Korea com os óculos americanos e o mesmo se faz com os EUA senão não haveria possibilidade de guerra (quando um não quer, dois não fazem). Eu sempre vivi enraizado no capitalismo e meu organismo cultural sempre foi o que foi por tentar se adaptar a todo custo a esse sistema, não sei se iria gostar de que isso mudasse pois não sei como seria viver em um sistema como o da Korea, só sei que viver sob a ditadura do absoluto que nos inibe de reconhecer nossas fraquezas e nossa humanidade nos castra e nos transforma em robôs retirando nossa liberdade. Em ambos os países existe isso e isso pode existir até mesmo no Brasil, mas não significa que somente por eu ser brasileiro sou absolutista, até porque uma nação pode até ignorar suas exceções, mas não irá eliminá-las (vide a ditadura né). Prefiro ficar com a relatividade, ainda que me coloque em um partido este sempre terá de reconhecer suas falhas e sua impossibilidade de ser o partido oposto. O correto seria afirmar enquanto petista que não se pode atender as necessidades intrínsecas dos empresários e que por a ênfase ser no trabalhador os primeiros sempre irão ficar com a menor parte. O problema é que o brasileiro sempre dá um jeitinho e o que acabava por ser uma bela ideologia, se torna um desvio de caráter por tentar agradar a gregos e troianos e para quê? Poder! Será que o diabo é tão só estadunidense assim? Acho que deixar de olhar os demônios dos outros é começar a lidar com os nossos demônios (a relutância em aceitar que nunca iremos eliminar o que nossa ideologia combate) e aí deixamos de ver o mundo em termos de branco vs preto, crente vc homossexual, EUA vc Korea, capitalismo vs socialismo. E aprendemos que o próprio crente para ser o que afirma ser, precisa reconhecer sua sexualidade transviada, o capitalista precisa reconhecer sua incapacidade em se relacionar em uma relação desigual, o socialista sua incapacidade em lidar com o outro sem defini-lo antes.

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