CARTA ABERTA AO RESTO DO DEFUNTO

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15 de março de 2013 por Lucas Rafael Chianello

Prezado Defunto, você nunca vai ler isso. Primeiro, porque se for um fantasma que ainda vaga por aí, você não sabe português. Alemão, inglês e francês você sabia, né? E segundo, porque você está morto, há exatamente 130 anos. Não tem dessa de “yo no creo en las brujas, pero que elas hay, hay”. Cascata.

O tempo e o modo de contá-lo, Prezado Defunto, é uma coisa doida. Para uns, o primeiro grande fato acontecido a partir da tua teoria aconteceu no dia 7 de outubro. Para outros, 7 de novembro. Para uns, o ano novo é todo dia 31 de dezembro. Para outros, é heresia ver gente de olho puxado falando em mudança do calendário carregando carcaças de dragões de mentira. E muita gente por aquele lado se inspirou em você também.

Fato mesmo é que nestas convenções temporais, daqui a 43 minutos fará, para quem está no fuso horário deste que vos escreve, 130 anos e um dia de sua morte.

Dias atrás, Caro Defunto, o resto de outro que em muitas coisas te seguiu logo, logo se juntará a você. Não sei como era no teu tempo, mas aqui no Brasil, quando uma pessoa é muito boa no que faz, dizemos que tal pessoa é “o cara”. E esse sujeito que morreu dias atrás era “o cara”. Até em estádio de futebol e nas ruas de uma das principais cidades do mundo o cara foi homenageado. Como era a tal de Nova Iorque na tua época? Num troço chamado televisão, que na tua época sequer sonhavam com isso, essa cidade aparece todos os dias, várias vezes.

É, Defunto, você não foi fácil, não. Mais precisamente, em 9 de novembro de 1989, disseram que você estava morto de vez. Nada disso, meu caro. Teve um cara na Hungria, no século posterior ao da tua vida e morte, que muito leu seus escritos e foi um dos mais significantes filósofos da tua teoria. Um dos alunos dele meio que reescreveu o teu destrinchar econômico e não há mais dúvida alguma daquilo que é melhor para o mundo. Nas palavras dele, “socialismo ou barbárie”. Parece que a Rosa Luxemburgo falava isso aí também, salvo engano e google free. Esqueça, nem queira saber o que é google, sistema operacional, etc.

O defunto da carta atualmente mora em Londres.

O defunto da carta atualmente mora em Londres.

A questão, Caro Defunto, é que quando diversos países edificados sob a tua teoria ruíram, te enterraram pela segunda vez. Mas como a história é dialética, o tempo é o senhor da razão. Venderam tudo, deram dono pra tudo e quando veio a crise, recorreram a quem? A você. Não sei se te visitaram aí no teu túmulo, mas foram ler os exemplares, livros e tomos de tua principal obra.

É, Defunto, você não foi fácil. Lá se foram 130 anos desde que você se apagou para sempre. Teorias e boa vontade de alguns em querer algo melhor para o mundo tem muitas por aí, mas no frigir dos ovos não adianta, é você quem se sobressai. Um francês disse que você era o insuperável de nosso tempo.

Comigo não foi diferente. Não estive em Londres, onde você desenvolveu grandíssima parte do teu pensamento e prática, mas aprendia inglês e uma menina de minha idade, com quem estudava junto, deixou algo que permanece comigo até hoje: o teu Manifesto. As coisas são muito esquisitas, Defunto. Essa menina se enquadra em boa parte numa música que tem o teu nome.

Li o tal Manifesto e concluí que finalmente via uma receita do que realmente poderia ser feito para melhorar esse mundo onde você viveu e eu vivo. Tamanho é teu mérito que até um frei, torturado aqui no Brasil por lutar contra a ditadura militar que nos assolava, dizia que mudar o mundo passa por te entender. Você, que dizia que a religião é o ópio do povo.

Pois vamos em frente, Prezado Defunto. 130 anos depois, a luta continua. Nas palavras de outro que muito absorveu tua contribuição para a humanidade, “Hasta la victoria siempre”!

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