CARTA ABERTA AO AMIGO DE INFÂNCIA JOÃO PAULO FLORA SCHARINGER

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28 de fevereiro de 2013 por Lucas Rafael Chianello

Prezado João Paulo, não só o tempo mas também as academias são máquinas de fazer monstros. Em época na qual de alguma forma virou moda ficar fortão puxando ferro, quem diria que aquele molequinho magrelo e menor do que eu ficaria maior e mais forte. O que não é muito difícil, mas a desproporção atingiu nível absurdo.

E é com essa mesma desproporção que diariamente somos anestesicamente alvejados com as desinformações a nós veiculadas pela tal grande mídia, que será totalmente partidária enquanto não for regulamentada. Aliás, um parêntese: nos mais diversos países do mundo, das mais variadas tendências políticas, a atividade comunicativa é regulamentada. Por que não em terras tupiniquins?

Não seremos detalhadamente informados, portanto, que no último domingo se iniciou uma nova legislatura da Assembleia Nacional do Poder Popular em Cuba, enquanto que do teatro eleitoral quatrienal ocorrido nos EUA entre democratas e republicanos ficamos sabendo de tudo o que acontece em forma de informativos diários refinados por comentários daqueles que a própria mídia denomina de grandes analistas e especialistas.

Não, João Paulo, os mais de 600 deputados da Assembleia Nacional do Poder Popular não são candidatos por um único partido, o Partido Comunista de Cuba. Para que se componha a Assembleia Nacional, todos os membros eleitos foram indicados por suas comunidades. Eles não apareceram na TV nem pagaram marqueteiros especialistas em campanhas eleitorais para serem votados. Seus nomes foram afixados nos murais das seções eleitorais na qual eles podem ser votados para que os cidadãos eleitores neles votassem.

E tem mais: de seis em seis meses eles terão de prestar conta dos seus mandatos junto a comunidade, que caso sinta-se insatisfeita, poderá substituí-los pelos seus suplentes. É o chamado voto revogatório, ao contrário do Brasil, onde devemos aturar por quatro anos promessas não cumpridas dos políticos que nos decepcionam.

Caro amigo João Paulo, esta carta aberta era para ficar pronta ainda no domingo. Por razões profissionais e pessoas, somente pude terminá-la hoje. E termino escrevendo-te, com toda a ternura de uma amizade de longa data: sinceramente, estou de saco cheio desse papo de “Cuba é uma ditadura”, “em Cuba as pessoas não são livres”, “se Cuba é tão bom, por que você não vai pra lá?”, etc. Penso, primeiramente, que mais do que nunca, em tempos de pós-modernidade, devemos falar e nos posicionar com conhecimento de causa, num mundo onde atualmente os inteligentes tem dúvida e os imbecis estão mais convictos do que nunca. A mesmice dos “argumentos” é tanta que parece que o Muro de Berlim ainda não caiu.

O ódio gratuito que sentem de Fidel Castro é a coisa mais ridícula que já vi na minha passagem terrena, a ponto de virar Fla-Flu e as coisas irem para o âmbito da torcida. Torce-se, a qualquer custo, para que haja famintos em Cuba. Torce-se, a qualquer custo, para que haja analfabetos em Cuba. Torce-se, a qualquer custo, para que Fidel, Raúl e companhia estejam executando cidadãos cubanos comuns, de modo que te pergunto: a troco de que torcer para que seres humanos estejam em situação degradante? Aonde queremos chegar com um ódio gratuito tão arraigado para pensarmos, a qualquer custo e sem qualquer questionamento, que Cuba é a Ilha da Rainha da Morte onde Ikki teve de corromper sua alma para conquistar a armadura de Fênix?

Enfim, meu querido amigo João Paulo, para agora encerrar de vez. Enquanto nesta ditadura satânica que corrompe os seres humanos há eleições livres e democráticas desde 1959, nosso país e nossos vizinhos passaram por ditaduras (de direita, diga-se de passagem) dentre as décadas de 1960 até o finalzinho da de 1980. Todavia, na Argentina, no Chile e no Uruguai, países que julgamos periféricos por não jogarem futebol tão bem como nós, Pinochets, Videlas, Bordaberrys e companhia respondem por crimes de lesa pátria e lesa humanidade. Muitos deles estão presos. Nós, o “centro da mais avançada civilização latino americana”, fomos condenados na Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos porque nossa Lei de Anistia permitiu a reinserção na vida pública tanto dos que lutaram como dos que defenderam a ditadura. E muitos arenistas torturadores até hoje estão aí, participando da vida pública de nosso país com todo o capital político acumulado na era da ditadura. Para nós, poçoscaldenses, não há exemplo pior do que o ex-prefeito Sebastião Navarro, então deputado eleitoral pela Arena na época em que Poços de Caldas tinha seus prefeitos nomeados porque devido a questões de “segurança nacional”, era uma instância hidromineral.

Quando falamos, por exemplo, que a Presidenta Dilma (assim como você, torcedora do Clube Atlético Mineiro) foi vítima da tortura e que famílias de desaparecidos da ditadura são indenizados pelo Ministério da Justiça, as viúvas de 1964 aparecem dizendo se tratar de bolsa ditadura paga a assaltantes de bancos.

Por mais que hoje ainda possamos votar, ainda não acertamos as contas com um passado opressor e sangrento. No dia em que acertarmos, aí sim teremos alguma moral para falar que julgamos haver ditaduras em outros países, inclusive em Cuba. Enquanto isso…

Um abraço, meu amigo! A luta continua porque a resistência não acaba! E bom filme! (A todos que forem assistir e não só ao João Paulo, fiquem tranquilos. É um documentário argentino, algo longe de ser propaganda-oficial-manipulada-do-regime-castrista).

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